Quando a chuva desaba – uma missa e um pecado

Acho que todo desenhista de rua já passou por isso, ter que enfrentar a chuva bem na hora e local que pretendia desenhar. E aí vai uma dessas ocasiões.

Nessas horas de pingos ou aguaceiros surgem as questões: o que desenhar? Onde se abrigar? Como resolver o desenho ou a aquarela? Incorporar ou não esse elemento tão dominante no seu desenho? Bons aquarelistas certamente dominarão os reflexos molhados, as luzes borradas e farão um belo trabalho, mas essa não é minha praia.

Saí pela Vila da Glória cheio de disposição para quebrar a abstinência de alguns dias que não desenhava, mas a chuva caiu sem dó nas minhas expectativas. Abriguei-me em uma quadra coberta e desenhei o que estava à vista – a paisagem molhada que avistava e a garotada que também esperava a chuva passar jogando conversa fora. Admito, estava de mau humor e não consegui ficar de papo com o vendedor de coco que veio olhar o que eu estava fazendo. – Você tá desenhando? – É! Respondi lacônico.

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A chuva amainou, mas persistia. Escutei cantos vindos da igreja, corri pra lá sem mostrar o desenho para o vendedor, que deve estar me achando o turista mais insuportável que passou por lá nessa temporada.

Comecei o desenho da igreja com a mão mais aquecida. Os primeiros traços já se mostraram promissores. Para não atrapalhar os verdadeiros fiéis me enfiei num canto no fundo da pequena capela. Mas a missa foi enchendo, enchendo, enchendo e pronto, estava preso, não havia jeito de sair. Então, como havia tempo, fiz um desenho mais elaborado. Lá dentro Ave Maria, lá fora, uma chuva dos infernos.

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Uma das carolas mais entusiasmadas disse que queria ver o desenho depois. Agora que não podia mesmo ir embora antes do último amém. Deu tempo até pra outro desenho. Ao final da missa a chuva tinha amainado, fiz o social com o pessoal que queria ver a minha pequena bíblia de sketches e fui embora.

O vendedor de coco já tinha partido, acho que não estava vendendo nada naquele dia. Eu, no entanto, estava no lucro, quatro desenhos para uma tarde chuvosa. Meu coração só não foi mais leve pra casa porque faltei com meu irmãozinho de intempérie, o vendedor que não queria me vender nada, só puxar assunto ou matar a curiosidade. Ainda volto lá pra me redimir desse pecado.

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Praça do Homem Nu

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A Praça 19 de Dezembro em Curitiba não é um lugar “fofo” da cidade. Conhecida como Praça do Homem Nu, que me soa bastante machista, porém justificável, já que a mulher foi pra lá depois, a praça é um lugar sujo e depredado. Não encontramos por lá os mesmos suspiros de encanto que vemos em parques, museus e outros lugares mais aprazíveis de Curitiba. Apesar disso, a sua atração estética não passa desapercebida. Seja pelo obelisco que comemorou os 100 anos da emancipação política do Paraná, os dois gigantes de pedra – o homem criado por Erbo Stenzel e a mulher por Humberto Cozzo, pelo alto relevo também de Stenzel, pela agradável arborização ou pelos lindos desenhos do painel de azulejos de Poty Lazzarotto.

Mas admito que é difícil ter prazer estético ao sabor de fortes odores urinários e à presença de bêbados e “malacos”. Mas como “voyeuristas” da cidade os “urban sketchers” apreciam essa praça. E não apenas nós. Movimentos sociais já a elegeram inúmeras vezes como ponto de encontro e travestiram as esculturas com muitos propósitos diferentes. Menos barulhentos, e não menos importantes, são os casais românticos e pessoas simples que tiram fotos e depois caminham para um passeio no Passeio. Público que não se sente incluído nos espaços burgueses da cidade, mas também dão vida, significado e verdade a essa praça de Curitiba.