A glória no oftalmologista

Hoje, no exame rotineiro das vistas percebi que há um resquício de medicina a moda antiga na oftalmologia. Apesar de todos os avanços tecnológicos que surgem a cada minuto e transbordam nos consultórios dos médicos, a oftalmologia ainda usa aquele velho aparelho para saber o grau dos nossos óculos.

Não faço ideia de qual é o nome daquele estranbólico aparelho, mas o conheço desde criancinha. E as frases clássicas ainda estão lá: — assim é melhor? ou assim? deste ou daquele jeito? Leia as letras, agora as de baixo. São 30 anos indo a oftalmologistas e não mudou nada. Alguns modernizaram, como esse, as letrinhas agora são digitais, num monitor, mas o aparelho é o mesmíssimo.

O que é mais surpreendente é que nesse caso, os médicos, arrogantes detentores da verdade, tem que nos ouvir, pobres mortais ignorantes. Não tem como, só nós podemos saber qual é o melhor remédio, qual será a dose, pra um olho ou para o outro. Os médicos só viram a chavinha e perguntam: — melhor assim, ou assim?

Esse estranho aparelho devolve a relação médico-paciente ao seu devido lugar, porque o médico é obrigado a nos perguntar e escutar antes de diagnosticar. E não pode usar aqueles modernos instrumentos nucleares, ultra-sônicos, radiônicos-x para saber e nos impingir a sua verdade médica. Eles com esses aparelhos cósmicos em mãos nos determinam: você tem isso, você tem aquilo, você vai morrer. — Ah! Vá se danar, você também vai morrer caro médico metido!

Ali, na minha cadeira de paciente-rei, revivo a glória soberana dos monarcas, e abaixo o médico, humildemente suplica: — senhor, esse ou este é melhor?

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Retratos do Rio IV

— Valeu motô por ter afoguetado nossa viagem!

Essa frase veio no fim da história, mas vou contar do começo o causo. 636 – Praça Saens Peña – Gardênia Azul, é o número e itinerário do ônibus, os nomes são chiques e até perfumados, mas não é bem assim na real. Peguei o dito logo após a meia-noite e as ruas já estavam vazias. Nosso audaz motorista literalmente vôa em seu bólido de metal. A pilotagem louca faz curvas impossíveis de não capotar e de tirar finos e raspões dos postes e árvores do caminho. Seu estilo de pilotar toma nossa atenção, estamos tensos mas felizes, afinal vamos chegar mais cedo em casa, se não chegarmos mais cedo em outro lugar.

Na altura do Engenho Novo um segundo ônibus que segue vazio e também com um motorista ousado, acelera e ultrapassa nosso coletivo. Nosso piloto não deixa por menos e emparelha na subida tentando ultrapassar pela direita, quando subitamente recebemos uma bruta fechada que quase nos leva a beijar o primeiro poste. Essa disputa era um senha, um sinal, e eu não sabia. Em uníssimo muitos passageiros começam a soltar berros e gritos de apoio ao nosso motorista e xingões irreprodusíveis para o outro. Se inicia uma perseguição desvairada, nós contra ele, muitos gritos  e palavrões acompanham. — Passa ele motô! — Pega o &*%$! — Bate nele! Bate nele! Meu motorista, digo nosso, não faz por menos e consegue finalmente ultrapassar humilhantemente o adversário. Ufa, acabou…

Não, não acabou nada, quando passamos ao lado do rival na hora da ultrapassagem soltamos diversas frases de baixo calão para urrar nossa glória, — filho daquilo, — burro, — safado, etc. Mas o causo não termina por aí, digo, a vingança ainda seria servida. Os passageiros em uma sintonia telepática com o motorista berram para ele esperar o outro, nosso herói bem feliz fica fazendo hora, remanchando no trânsito para ser alcançado, e quando o nosso algoz vai finalmente nos ultrapassar o Ayrton (esse deveria ser o nome do nosso motorista) com um movimento brusco de volante joga o ônibus em cima do outro despachando-o para cima da calçada e de um muro. Rííííííííííííí soa a freiada súbita e também ressoam nossos berros tribais que comemoram como um gol a nossa excelente vingança. Ah, que delícia o prazer desse sentimento compartilhado por homens, velhos, jovens, crianças de colo, grávidas, estudantes, malandros e eu.

A maioria da turba desce em Cascadura e os elogios direcionados ao nosso Ayrton são arrematados por: — Valeu motô por ter afoguetado nossa viagem!

Retratos do Rio III

Taxi! 40º graus no Rio e resolvo pegar um táxi com ar refrigerado para fazer um trecho grande. Fico pensando que ficará meio salgada a conta mas valerá a pena. O táxi que se aproxima é meio antigo e detonado. Já imaginei que não teria ar e eu iria até a Tijuca numa sauna, mas alívio, o carro era velho mas tinha um ar fresquinho, gelado não.

O motorista simpático logo puxa assunto, papo daqui papo de lá descobrimos que somos contemporâneos de infância do mesmo bairro. O caminho se faz em memórias e recordações, cada um foi revirando seu baú e relembrando o Cine Ypiranga com sua sessão dupla Sexo e Karatê, o Cine Baronesa e as sessões matinais de Tom e Jerry, isso gente, Tom e Jerry no cinema! As várias tentativas frustadas da prefeitura implantar um chafariz na Praça Seca, deve ser maldição do nome. E antes da atração principal do cinema o maravilhoso Canal 100! Para quem não viu era um compacto semanal das notícias do futebol, ou seja, os grandes clássicos registrados em película 35mm. O mais puro cinemão para honrar as jogadas de Zico, Júnior, Roberto Dinamite, Rivelino e outros astros. O taxista me premia com uma voz afinada e cantarola a música tema do programa.

De repente a viagem termina sem acabar nosso assunto. A corrida ficou em 39 pilas mas ele arredonda para 35 merrecas. Estava muito boa a conversa, justifica ele. E no lado de fora até aquele calorão do Rio ficou mais ameno.

Retratos do Rio II

Pego o 650 em Madureira indo para o Méier. Micro-ônibus fazendo percurso de ônibus inteiro, vai sacolejando pelas ruas dos bairros periféricos do subúrbio carioca. Buracos, engarrafamentos, obras inacabadas e outros obstáculos vão sendo vencidos a custo de muitos safanões e velocidade acima do limite.

Lotado, a todo tempo parava para recolher mais passageiros. Contrariando as leis da física duas ou mais pessoas ocupavam o mesmo lugar no espaço, aperto geral. O motorista vai exercendo suas diversas funções, dar troco, resolver quem é passe livre ou não, idosos e não-idosos, xingar o trânsito e claro, dirigir.

Vamos todos no mesmo barco dividindo nossos incômodos, hálitos, suores e um sentimento de massa única que essa experiência propicia. Quando o ônibus para em mais um ponto adentra a nossa lata de sardinha coletiva um marinheiro, impecavelmente branco! Seu uniforme alvo está cuidadosamente passado a ferro (será que foi também engomado, ainda se faz isso?) e seu sapato é preto reluzente. Ele se enfia por entre a plebe como um anjo branquíssimo, o cara devia ter algo de divino pois chegou ao fundo do ônibus ainda impecável, sei lá, milagre talvez. A cena faz uma música ecoar na minha cabeça, tãrãrãrãm.. narãm.. narãm.. e o Tom Cruise de uniforme branco em Top Gun.. sei lá se misturei os filmes, mas havia algo de surreal naquilo, não é possível foi tudo armado e tinha até trilha sonora… tãrãrãrãm.. narãm.. narãm.. e o 650 seguia indiferente seu caminho, mas para nós, espremidos naquela cena, tinha algo de digno, algo de elevado, algo de impecável que entrou em nossa vida atribulada e barulhenta… e tenho certeza que todos ficamos mais felizes.

Retratos do Rio I

Padaria, não aquela “bunitinha” da zona sul, ou uma padaria curitibana, mas uma padaria dos subúrbios cariocas junto ao ponto final de algum ônibus. Escura, suja, caótica, tocando um pagode no power-system-paraguaio. No lado de fora um homem careca, de meia idade e doente mental xinga quem passa, filho da.. , vaga…, viad….

Cansado do seus afazeres ele vem comprar café com parcas moedas. A atendente se recusa: — você tá xingando então não vai ter café. O dono da padaria, que é o caixa, senhor grisalho, barba de 4 dias, barrigudo, se aproxima com um cassetete surrado na mão e bate no balcão: — o que que foi? Cafêé, cafêê, caféê responde o nosso corcunda de notredame. O dono da padaria faz um ar de “olhhhaaaa!” mas manda a funcionária, com seu uniforme amarelo impecavelmente imundo, dar café ao nosso protagonista. Ela reluta: — mas ele tá xingando!? O homem grisalho, poderoso dono da padaria insiste e ela cede, faz um café aguado meio café meio água fria num copo descartável. Serve e recolhe as moedas, satisfeito ele pega seu copo e vai embora. Olhar cúmplice entre nós, todos rimos.

A atendente se dirige a mim e faz um comentário sarcástico: — é irmão dele aí (apontando para o dono), um é doido e o outro toma tarja preta.

Nota: o pão com manteiga dessa padaria é ótimo.

Para não dizer que eu não falei de saputi

Saputi é uma fruta. O dicionário me corrige dizendo que é sapoti com O, a grafia correta. Mas eu vou de saputi mesmo, essa fruta doce de pele fina e marrom. Saputi foi a fruta da minha infância, claro houve mangas de vários tipos, carlotinha, espada e muitas outras que dão muitas histórias, mas saputi é a número 1.

Também houve carambolas e tamarindos. Mas essas frutas que estou falando não eram somente coisas de comer que vinham do supermercado ou da feira (as que vinham das compras eram banana e laranja, não muito mais que isso), essas eram as frutas que pegávamos do pé, que sabíamos onde elas moravam, que podíamos apontar para elas e não precisávamos pagar e sim escalar troncos, pular muros, invadir propriedades a sua procura, e na época certa desfrutá-las, com perdão do trocadilho.

Nunca havia me atentado para isso. Todo mundo fala que é realmente muito diferente o sabor da fruta no pé, mas é mais que isso, ao sabor da fruta se acrescenta a árvore, os desafios de pegar, os medos, as delícias, as companhias e tudo mais que as tornam as FRUTAS maiúsculas de nossa vida. Ficar relembrando essas delícias dá uma safra de boas histórias. Mas agora o que quero mesmo é falar de saputi.

Tudo acontecia na casa da Dona Zulmira. Ela não era minha parente, era uma vizinha dos meus primos. Eles moravam em Macaé, que na minha infância era apenas uma cidade pequenina no litoral do Rio de Janeiro, não havia ainda essas coisas todas relacionadas ao petróleo, pré-sal e ao futuro do país, que hoje a cidade ostenta. A casa da Dona Zulmira era de fundos e tinha muitos gatos, a gente entrava por um corredor comprido e lá trás, num quintal imprensado entre outras casas, havia um imenso pé de saputi. A escala de grandeza fica por conta da memória fraca.

Saputi é uma fruta de criança, muito doce e com uma pele fina se entregava fácil a nossa gula infantil. Ficávamos ali, ao redor da árvore, comendo seus frutos e nos regalando nos galhos ensombreados. Não lembro muito dos detalhes por lá, ficou um devaneio de lembrança, que escorrega como as sementes lisas e pretinhas de saputi. Taí uma coisa bonita, a semente de saputi é de um negro tão negro que passaria por pedra preciosa, e para mim era.

O saputizeiro foi um amigo querido. Dona Zulmira e seus gatos eram personagens interessantes, mas diante daquela árvore que nos oferecia sem limites doces suaves e galhos acessíveis, não tinha como, ia pra lá só para estar habitando aquela casa-árvore, cheia de vida, cheia de pássaros e delícias. Eu, menino de apartamento da cidade grande, me sentia finalmente inteiro, como se estivesse dentro de um desenho de livro: o menino, a árvore e a fruta. E talvez por esses momentos na árvore que minha vida se tornou mais doce, porque há um saputi de infância eternamente brotando dentro de mim.

Um outro pé de pequi

Assistindo a um desses programas rurais aprendi que os pés de pequi não dão frutos quando estão sozinhos. Isso dito já seria o bastante para minha crônica do dia, mas muitos leitores ficarão me inquirindo e dizendo que isso não tem pé nem cabeça. Olha gente, pé tem, tá no título e a cabeça é a minha que ficou elocubrando essas coisas depois da lição de agronomia.

Um pé de pequi precisa de pares para dar frutos, tem aquele lance dos polens voando pra cá e pra lá. E aí o pequizeiro engravida e dá um monte de pequis. Eu nunca vi um pé de pequi pessoalmente, e também não gosto do fruto. Quando morava em Belo Horizonte tinha a época do pequi, e toda a cidade era tomada por aquele cheiro, pois nas calçadas os ambulantes ostentavam as banquinhas do fruto de amarelo característico.

Eu nunca pretendi colher pequis, nem plantá-los para comer suas iguarias. Mas eu sonhei e muito em dar frutos, qualquer fruto. Talvez meus frutos não fossem tão famosos como pequi, ou como saputi, mas eu sonho em frutificar. Porém, como era o caso do pequizeiro da reportagem não consigo dar frutos se não tenho outro pequizeiro por perto. Nisso, meu caro agricultor plantador de pequizeiro, me identifico plenamente com essa espécie. Me sinto assim, uma árvore que deveria dar fruto, mas não dá.

Ai que triste solidão que me deixa seco, sem o pólen que troca e promove a fertilidade. E não é de qualquer companhia que sinto falta, quero um parente de frutos. Quero saber de suas delícias, e ser polenizado por elas. Quero ver a revoada de pássaros nos seus galhos e que esses mesmos pássaros que cutucarem suas flores venham se empoleirar em mim também. Rindo atoa eu ficaria se ao menos um outro pequizeiro viesse a se instalar aqui perto. E topasse frutificar juntos. E se fossem vários? Delírio!

E nossos frutos e frutas seriam deglutidos em culinárias desconhecidas, ou mastigados em bocas estranhas, ou picados, socados, secados, misturados em todos os caldos que existem por aí. Eu seria o pequizeiro mais feliz do mundo. Um pequizeiro sorridente, um pequizeiro todo oferecido em galhos, flores e folhas, e claro, em pequis. Gente esse tal pé de pequi, solitário como eu, me emocionou tanto que já estou gostando do pequizeiro real, aquele que dá o fruto amarelo que eu nunca gostei, mas que agora faço questão de provar.

Vou ser pequizeiro no mato, e convido a todos que também queiram “pequizar” comigo que venham. Vamos fazer uma chuva de pequis alegres com cheiro de felicidade. Chega dessa tristeza de árvore sem fruto. Viva o pequi!

Raro de Oliveira – 7 novembro 2010

Legenda: Pé de pequi – foto Fábio Soares