A carona

Vocês podem me dar uma carona atá a Praça Tiradentes? O sinal estava fechado e a senhora carregava duas bolsas grandes. Interrompemos nossa conversa e tratamos de arrumar lugar para ela no banco da frente, pois com todas aquelas tralhas não conseguiria ir no banco traseiro do carro. Entrou agradecendo. Na rua que ela estava passava ônibus regularmente e não entendemos porque pediu carona, mas por algum motivo misterioso a gente sabia que devia ajudá-la. Choramingou escondendo o rosto – eu nunca pedi carona, ai que vergonha. Tratei de consolá-la dizendo que era normal, coisas da vida. Meu amigo que havia cedido lugar indo pro banco de trás permanecia mudo. Conhecendo seu jeito emotivo podia imaginar o que estava sentindo. Tentei puxar assunto, perguntar alguma coisa a ela para aliviar seu constrangimento, mas quando desviei o olhar do trânsito para ver sua reação percebi que ainda chorava. – A gente faz tudo pelos filhos e quando mais precisa não pode contar com eles. A mudez foi a nossa resposta. Eu queria ter mais o que dizer, mas palavras são arredias nessas horas. O silêncio reinou, somente interrompido por confissões curtas. O marido iria ter alta da UTI, mas teve uma piora à noite e teve que ficar. O filho estava escolhendo sua nova cozinha e não pode ir buscá-la. Ela largava tudo para ajudar a ele ou sua nora, mas ele não retribuía. O caminho tão curto ficou longo e estendido como um filme lento cheio de pausas. Chegamos próximo à Praça e parei para ela descer. – Muito obrigado, Deus abençoe. Retribuímos os votos. Ela se foi, mas o silêncio plantado naqueles momentos continuou crescendo, subterraneamente, por baixo das nossas palavras e falações, e continua agora e continuará, por quanto tempo lembrarmos daquela senhora.

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Não furtarás!

Nem me lembro mais dos mandamentos bíblicos, mas tive uma educação católica e com certeza eles me assombraram a infância. Naquele tempo íamos para a região serrana do Rio de Janeiro, era como ir pro sítio, cidade tranquila, maior liberdade de sair sozinho e, o melhor, aventuras longe dos olhos maternos.

Eu nunca havia roubado nada, e naquela altura tinha uma década de vida, já estava na hora. Volta e meia, eu e meu irmão mais velho, tínhamos que ir ao supermercado pra comprar coisas pra casa. Íamos felizes, desfrutando nossa liberdade, mas a lista de compras e o dinheiro contado não permitiam guloseimas. Doces? Não, a gente não desejava doces, nós queríamos azeitonas! Verdes, polpudas, saborosas e com um vidro hermeticamente fechado que nos separava delas, eram nosso sonho de consumo.

Passamos várias vezes pelo corredor das conservas sem ter coragem para o ato. Certo dia saímos decididos, fomos lá, não para fazer compras mas para roubar azeitonas. Tremíamos como vara verde e circulamos disfarçando pelos corredores até chegar ao nosso objeto de desejo. Peguei o vidro com determinação mas faltou força para abrir, meu irmão, mais velho, mais forte e também mais medroso, conseguiu se desvencilhar da tampa. Lá estavam elas, reluzentes, perfeitas, suculentas. Colocamos o máximo que podíamos na boca. Saímos rápido, sem compras, a boca cheia da prova do crime. Passamos tremilicando pela entrada e nos embrenhamos pelas ruas conhecidas que nos levavam pra casa.

Nem sei se conseguimos saborear nossa conquista, pois na nuca corria um arrepio de morte e ao longo do caminho pareciam que todos sabiam do nosso crime e nosso pecado. Seus olhares nos condenaram.

Arte em toda parte

Interferencia quadrado

A arte ocupa frestas e rachaduras, dá liga, agrega, recupera feridas. A arte resignifica, dignifica, acentua, atenua, transforma. Mesmo quando quebrada ou pisoteada, resiste como arte transformada. A Vênus, picotada ou rasgada, ainda nos remete à beleza. A arte só se ressente do descaso, e não é por acaso, pois a arte quer ser vista, pulsante, presente, em toda parte, em toda gente. A arte sempre acha um meio de seguir em frente.

Raro de Oliveira – agosto de 2014.
Projeto de interferência visual no cotidiano.

Para o Sr. G

O amor é um barbitúrico forte. Nos arrebata e faz a gente beber além da conta. Mesmo aos oitenta e tantos anos fortifica nossas pernas trêbadas para levar-nos de bicicleta até em casa, para lá beber mais e pensar mais nela. Pode ser no soçobrar de um barco na travessia cotidiana que o amor surge e nos põe de joelhos e faz a gente se declarar em público, frente a homens, mulheres, gaivotas e peixes. “É você minha amada, a mulher que eu sempre esperei, aqui estou a seus pés, diga o que você quer, venha ser minha esposa”. Ou pode ser confessionando para um estranho que entra na padaria. O amor é sempre sem retoques ou invenções premeditadas, o amor é espontâneo e dilacerante.

Conheci o Sr. G e ele me falou do seu amor pela senhora sua vizinha, mulher correta que não está disposta a novas aventuras depois da viuvez. E lá estava ele, copo em punho, latas vazias embaixo da mesa para manter uma discrição impossível, um homem oitentão disposto a beber, cantar e fazer “vergonhas” em público. Não importava nada, o amor não respeitava idade nem experiência, e este mesmo amor rejuvenesceu o dito e o lançou em uma adolescência cheia de hormônios e esperanças. Não foi uma conversa, era um monólogo, Sr. G estava apaixonado e queria falar da sua amada e do seu amor aos quatro ventos. Minhas orelhas vieram a calhar naquele dia. Sentei com ele e recebi suas palavras embaralhadas com o maior carinho possível.

O amor é assim, dominador, ai de quem quer controlá-lo e dar um sentido para ele, terá um triste delírio de vitória e nunca saberá qual é o seu verdadeiro gosto.

Dona Avenca

Hoje, depois de 40 anos de espera, adquiri um pé de avenca. Tá lá, bela e linda, frondosa e leve. Eu acho mesmo que a avenca é tão bonita que deveria ser uma árvore. Avenca para mim é o bonsai brasileiro. Quando vou na casa de alguém e tem um pé de avenca morro de inveja, digo, morria de inveja, porque agora também sou um abonado proprietário de um belo exemplar de avenca. Não sei se posso dizer que sou proprietário porque as lendas que correm sobre a avenca podem revelar o contrário. Mas vou ficar com a lenda que gosto mais, a que diz que o pé de avenca revela como vai o astral das pessoas daquela casa. Ela, sensível que é, murcha quando as coisas vão mal e fica viçosa quando as coisas vão bem. É realmente um aparelho de detecção de astralidade muito prático, e o melhor, só precisa de água, sombra e pouco vento.

Hoje eu comprei essa preciosidade por 12 moedas, eu pagaria até 100 por uma avenca por perto me dizendo que estou bem, e não sei se pagaria mais ainda porque ela indica tremores na minha aura e me alerta para me cuidar, e depois fica alegre e vistosa novamente, indicando que eu já estou melhor. A opinião dos outros é sempre muito importante e a opinião de uma avenca é mais ainda, porque ela não tem outros interesses além de água, sombra e pouco vento. Por falar nisso, foi a vendedora que me deu essas orientações e também me explicou que água é só uma vez por dia e que ela não gosta de adubo nem terra petra. Esse detector de sensibilidades domiciliares tem algumas exigências mas todas são bem simples: por ter uma forma leve e espiritual a avenca não gosta de acidez na terra, nem solo muito socado, a experiente vendedora me indicou pó-de-xaxim e pó-de-casca-de-coco para adubar a poderosa. Acho isso razoável, pela função que ela exerce, afinal uma médium particular tem suas idiossincrasias.

Sempre via as avencas nas casas alheias e ficava babando, tentando descobrir algum significado no desenho das folhas e na coloração geral da mãe de santo vegetal. Esses tempos vi uma linda, bem leve, arejada, verdinha, mas os espaços entre as folhas denotava uma certa falta de comunicação entre os membros daquele lar. Uma que via antigamente era perfeita para detectar os maus humores de sua dona, uma legítima descendente alemã do norte do Paraná. Mas o estranho é que sempre via apenas uma em cada casa, até que, em União da Vitória, encontrei a grande fábrica de avencas do mundo. É na casa de dona Marlene, mulher muito prendada que faz um rango ótimo, e no seu quintal vivendo felizes abaixo de uma palmeirácea baixa, milhares de avencas lindas, maravilhosas, parece até mato, mas não é. São centenas de avencas irmãs, saudáveis, brincando na sombra, com água uma vez por dia e pouco vento. Encostadinhas a um muro úmido elas estão no céu das avencas, e assim protegidas fogem até das geadas muito constantes naquelas terras.

Agora, orgulhosa e linda está minha avenca em cima da geladeira, na cozinha. Coloquei ela lá porque é sombra, claro, e também porque é um dos poucos lugares da casa que não tem vento constante, morando nessa terra litorânea de João Pessoa. Agora ela fica ali, ornando a cozinha com seu jeito de renda viva. Para sua companhia coloquei meu porco de barro, que é meu cofrinho de moedas, e uma canequinha vermelha de ágata, de tomar cachaça. Não canso de olhar e olhar, tomara que ela sempre esteja assim frondosa, meu estado de espírito agradece. Vou aguar todos os dias para receber sua bela e linda cor todas as manhãs, e se ela ficar triste, ai ai ai, melhor nem pensar nisso. Vou curtir minha nova planta caseira, minha Chica Xavier de geladeira, a vocês recomendo essa companhia, eu nunca me senti tão feliz em minha vida.

Raro Avencando de Oliveira – João Pessoa – 4 de abril de 2007

Palhaço

Eu uso o transporte público! Com essa frase de introdução parece que farei uma crônica de protesto, ainda mais com um título desses. Mas quero me corrigir, na verdade eu uso o transporte coletivo! Sim, porque o transporte não é público, o passeio é público, a calçada é pública, as praias são públicas – algumas – o ar poluído é público, as coisas gratuitas da cidade são públicas, mas o transporte é privatizado, terceirizado, concedido ou outra barganha qualquer com fins político eleitorais. Deve ser público só para os “grandes” homens públicos que andamos elegendo. Ah, mas eu falei que essa crônica não era de protesto, então não falaremos de política, afinal falar “disso” e não protestar está difícil ultimamente.

Eu uso o transporte coletivo! Essa é maneira bonita dos políticos – ai, olha eles de novo – falarem desse serviço de ruim a péssimo que temos nas cidades brasileiras. Esse “coletivo” dignifica o transporte e o serviço, dando um ar de democracia. Mas essa não é a verdade do dia a dia, todos sabemos. Então vou usar o termo que melhor explica essa tragédia diária.

Eu uso lotação! Isso, agora sim, lotação é antigo mas define bem o que eu uso. Sempre cheio nos horários que a gente mais precisa, seja expressão, expressinho, micro-ônibus, ou van. Vamos abarrotados e lotados nos transportando de um lugar para outro como formiguinhas enfadonhas e repetitivas.

Aqui onde vivo, nos ditos ônibus biarticulados, adotaram como padrão um sistema de áudio para amansar o povo. A trilha sonora vai girando pela música clássica, a instrumental sem sal e alguma música popular também sem vocal. Tudo para acalmar a gente que tá ali puto e apertado. Já escutei de um rapaz com jeitão underground que a situação lembrava filmes da Alemanha nazista – a gente se apertando lá dentro, a maior atrocidade rolando, e o som ambiente nos acalmando com um belo e harmônico Mozart. Acredito que ele tem razão, já vi cenas de filme assim, mas não vamos chegar a tanto né gente. E afinal, qual era o assunto mesmo? Ah! Palhaço!

Palhaço! É o nome de uma música do Egbeto Gismonti que volta e meia se repete na programação sonora do lotação. Adoro ouvi-la quando estou lá tentado achar um espaço para pôr os pés ou fugindo de um cotovelo mais pontiagudo que passa. Vou acompanhando a melodia e tudo fica mais bonito, até mais espaçoso. Curioso, procuro os outros passageiros para ver as reações e sempre encontro alguém que de repente ficou com brilho diferente no olhar ou revelou um sorriso no rosto antes carrancudo. Sei lá, não sei se é viagem, mas essa música tem esse poder. E de repente, ao som de Palhaço, só para aqueles que não estão entretidos com seus fones de ouvido, um sol amarelo, inocente e risonho entra no picadeiro do nosso ônibus.

O último sorriso de um homem

Ele estava morrendo, e sabia. Internado com certo conforto num quarto particular de hospital assistia o ir e vir dos parentes consternados, das frases de consolo, da esperança e também das orações desesperadas. Dentro do possível se alimentava e dormia, mas em sua ânsia de vida queria mesmo é estar acordado. Insistentemente procurava interagir com todos que apareciam, e cobrava que outros o visitassem. A todos queria exprimir a mesma certeza: iria sair logo dali, pois para Deus nada era impossível e tinha fé em sua cura. Para os visitantes restava certo choque entre as palavras tão cheias de vida de um homem que estava cada vez mais magro e debilitado, e a cada dia revelando um pouco mais sua face de ossos e seu esqueleto, como todos nós somos por baixo.

Os cochichos entre os parentes exprimiam outra história, não havia mais jeito, era esperar só o fim previsível. As enfermeiras iam e vinham com cuidados levemente desleixados, de quem sabe que eram só paliativos. Ele procurava manter-se digno e vivo. Encantava a todos com palavras de afeto, confissões do passado, memórias incríveis de 71 anos bem vividos. E lógico, galanteios às enfermeiras mais carinhosas ou de formas mais abundantes. Apesar de manter-se de pé, mesmo estando deitado em sua cama de hospital, ele não era homem de muitos risos. Havia uma seriedade nas coisas que falava, próprio de um militar reformado cheio de disciplina, e que sempre se mostrou desajeitado para entender piadas, e também não as fazia. Guardava sua alegria para outros assuntos, como sucesso, progresso e desafios.

Mas aos poucos os sussurros foram ficando mais altos, as pessoas deixaram a discrição de falar frases de desesperança somente fora do quarto, muitas vezes o faziam perto do homem que se recusava a ser moribundo. E apesar das altas doses de morfina, dos tratamentos dolorosos e da aparente sonolência, mantinha-se atento ao que acontecia à sua volta, muitas vezes completando frases ou dando informações: “—foi no ano de 1967…”, “—número 1321 da Cândido Benício”, “—não foi assim não, estava o tio Justus e a mamãe”, e assim ia interagindo com conversas e sofrimentos.

Sempre que possível queria levantar-se ou sentar-se um pouco. Gostava de ficar no sofá das visitas e era uma operação ajudá-lo nessa tarefa, pois apesar de estar muito magro era um homem grande e de ossos fortes. E lá ia ele para o sofá com soros e remédios injetados. Ali, se sentia bem, pois saía da condição de doente e se tornava por alguns minutos, visitante de si mesmo. Num desses momentos sua irmã ficou reclamando de umas dores nas costas e de outras mazelas. Fiquei um pouco indignado com sua falta de sensibilidade para ficar reclamando da vida diante de um homem que estava dando uma prova de grande coragem e mantendo o bom astral em condições tão difíceis. Em tom de ironia e aproveitando que ele estava no sofá falei: “—tá incomodada? Fica na cama dele!”. Não sei direito por que, mas ele viu grande graça nessa história e riu muito, muito mesmo, talvez pela ironia e talvez pela morfina. Foi um riso como há muitos anos eu não o via ter. E o constrangimento que poderia ter surgido entre os parentes se dissolveu totalmente diante da sua alegria. A gargalhada terminou com uma frase que eu sempre gostava de ouvir dele: “esse Raro é um gozador”.

Essa foi sua última risada, no dia seguinte o meu pai morreu de câncer.