Leonardo Da Vinci e eu

Perambulava pela Vila da Glória e já havia desenhado uns barcos no trapiche. Estava com fome e procurei um lugar pra comer e fazer um desenho de barriga cheia, que é melhor. Pedi o tradicional caldo e pastel e comecei a desenhar a sorveteria logo em frente, com uma baita árvore compondo a cena.

Na mesa próxima alguns amigos conversavam animados, já meio altos. Um deles, mais curioso, ordenou ao filho num tom de voz elevado e nada sutil – Vai lá e pergunta pra ele o que ele tá fazendo? O menino veio, tímido, e perguntou o que eu fazia. – Tô desenhando. Respondi. O menino voltou e informou ao pai. Ainda insatisfeito inquiriu o menino: – Mas tá desenhando o quê? Vai lá e pergunta pra ele. O menino veio, resignado e curioso, respondi: – aquela sorveteria ali, e antes tava desenhando os barcos. Mostrei a ele. O mensageiro volta, informa ao pai que finalmente vem verificar pessoalmente o que eu estava fazendo. Olha admirado e faz elogios. Volta à mesa e conta o que viu aos outros. Um deles, bochechas vermelhas e bem “animado” começa a gritar “você é o cara! você é o cara!”, mesmo sem ter visto nem um traço na distância que estava. O pai, que se gabava com histórias másculas, teve uma ideia, veio impetuoso em minha direção, acompanhado do herdeiro. – Você desenha tudo né? Tentei explicar que não era bem assim. Não se importou e continuou. – Então, lá na frente da minha casa tem uma parede branca, você pinta uma Santa Ceia lá pra mim? É.. quer dizer. Não me deixou explicar e continuou: – nem precisa se preocupar com tinta, eu tenho tudo, pode deixar, você vai pintar a Santa Ceia lá em casa! Não consegui me desvencilhar da determinação alcoólica dele, pegou até meu telefone e tudo mais. Mas por sorte minha, nunca ligou.

Hoje, passado algum tempo, fico pensando. Pra aquele cara eu era o gênio, o Leonardo Da Vinci das quebradas que brotou na sua Vila e podia pintar uma obra-prima na fachada do seu lar sagrado, seu templo familiar. É claro que não era um cliente muito afável e nem muito santo, para a pintura de uma cena tão divina e elevada. Mas a Igreja Católica também não era, né Leo?

Deu vontade de ter feito minha ceia bíblica com o Cristo dividindo uns pastéis e tomando caldo-de-cana num balcão de lanchonete. Deu vontade…

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