Museu de lá pra cá

Desenho_Museu_Alfredo_Andersen_600pxFui ao museu que leva nome de pintor importante, Alfredo Andersen, um mito da pintura paranaense. Tinha compromissos e queria fazer um croqui rápido, a princípio lá do outro lado da rua, aproveitando o formato paisagem do meu sketchbook. Já estava saindo, cumprimentei os funcionários, assinei o livro de visitas, peguei o catálogo da exposição e quase com o pé na calçada parei subitamente. Tive um daqueles flashes que a gente não explica. Havia passado no lugar onde queria desenhar! Dei 5 passos pra trás. Dali, exatamente do ponto de vista do guarda tinha que fazer meu desenho. Pedi licença, expliquei o motivo, me abanquei e comecei o trabalho.

Podia observar o movimento, o vai e vem das pessoas, perceber a tremulação que os ônibus provocavam no casarão antigo. Apreciar do outro lado da rua um prédio quase gêmeo, pintado de verde desbotado. Compondo a cena também havia a floreira, as árvores, e o telhado. Tudo lindamente emoldurado pela entrada do museu.

Comentei com um dos guardas que as pessoas passavam rápido e precisava desenhar de memória, a porta era estreita. Ele concordou, mas disse que mesmo assim ele reconhecia alguns comerciantes vizinhos e passantes de todos os dias. Fiquei admirando aquele ponto de vista, reparando nas pessoas que olhavam de soslaio, espreitando curiosas para dentro, mas não entravam para ver os solitários quadros em exposição.

Para os funcionários e para mim, a exposição era outra, não as que eles guardavam, mas a que passava na rua, livre, emoldurada pela porta. Pinturas fugazes, gravuras velozes, esculturas que falavam. Os acontecimentos assim recortados pela porta tinham uma tremenda atração. O silêncio interior contrastava com o burburinho do mundo que entrava em porções estreitas. Um barulho de caminhão, um canto de pássaro, um mínimo trecho de conversa entre duas moças.

Concluí meu desenho e deixei os acabamentos para outra hora. Me despedi e entrei na moldura-porta que acabara de desenhar. Passei pro outro lado do mundo, agora eu seria mais uma daquelas figuras que os funcionários viam, cheio de urgências e conversas picotadas, me tornaria uma cor, uma forma, uma composição, um movimento…

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Uma resposta em “Museu de lá pra cá

  1. Crônica e desenho lindos! O desenho emoldurado por uma porta. Portas são como bocas. Sussurram histórias aos artistas. Demais você ter olhado para o contrário. De dentro para fora. De dentro do desenho, para o real. O museu sempre está do lado de fora ( onde também está a verdade, segundo o Arquivo X…heheh). Este recorte vertical ficou fantástico e cada vez amo mais estas suas figuras desproporcionais com cabecinhas de alfinete. Uma grande angular – rara e única!

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