O desenho derradeiro

Desenho Sketch Oculto

Uma Araucária no bairro Bom Retiro em Curitiba

O desenho foi feito na última folha do bloco, a última bolacha do pacote, como se diz popularmente. Juntando até os dias de hoje talvez some 15 a 20 anos que o bloco andou perambulando pelo mundo. Veio do Japão pelas mãos de uma amiga e ficou guardado. Ganhei o bloco dela com o ensejo de fazer desenhos. Assim ela esperava que fosse, não foi. Alguns anos ainda ficou esquecido, em meio à bagunça. Um pouco por que eu estava afastado do mundo dos desenhistas, e entretido no mundo dos designers, em parte por medo. É medo, medo de papel em branco. E ainda um papel fino como aquele… não dava, me intimidava.

Aí veio o Croquis Urbanos Curitiba para sacudir a poeira do meu eu-desenhista. Nos primeiros encontros nem me lembrei do dito bloco. Mas em um dos domingos, na correria para juntar o que levar, me deparei com o bloco de folhas bacanas e levei. Até então não tinha gostado de nenhum dos desenhos que havia feito nos encontros. Mas esse dia foi especial, criei o desenho a partir da figura de um passante e o espírito urban sketcher encarnou em mim, acho que definitivamente.

Pintou aquela coisa de se abrir para o que está à sua frente naquele momento, sem trazer imagens pré-concebidas. Se arriscar porque é um croqui, é um estudo, é um registro, é um lazer, prazer… essas percepções todas caíram de uma só vez na minha cabeça. E registrei onde esse momento? No bloco antes esquecido. Nessa matéria feita de celulose e trabalho.

Flertei, e ainda flerto, com diferentes suportes, mas o bloco japonês foi sendo usado. Alguns desenhos felizes e muitos que não foram aquele sucesso. Hoje, quando saía bem cedo de casa, sabia que teria algumas horas de espera. Seriam momentos demorados, sem nada para fazer, e tinha um atrasado desenho de Sketch Oculto que poderia colocar em dia. Puxei o bloco, mas vi que havia somente a última folha, pensei sem tempo: – vai nessa mermo!

Chegou a hora da espera e com o bloco na mão fiquei procurando o que desenhar, não podia sair do prédio, que não tinha uma cenário que me encantasse. Mas como se encomendado por um roteirista de róliúde, ao final de um corredor havia um janelão, daqueles que vão até o chão, e quatro confortáveis poltronas, exatamente de frente para uma araucária. Ao fundo a cidade emoldurada. Sorri satisfeito, era o destino. Me sentei e fiz o derradeiro desenho na última folha do bloco japonês.

Curitiba, 25 de setembro de 2015

Foto de Eliana Del Bianco Alves, a atual dona do desenho.

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