A carona

Vocês podem me dar uma carona atá a Praça Tiradentes? O sinal estava fechado e a senhora carregava duas bolsas grandes. Interrompemos nossa conversa e tratamos de arrumar lugar para ela no banco da frente, pois com todas aquelas tralhas não conseguiria ir no banco traseiro do carro. Entrou agradecendo. Na rua que ela estava passava ônibus regularmente e não entendemos porque pediu carona, mas por algum motivo misterioso a gente sabia que devia ajudá-la. Choramingou escondendo o rosto – eu nunca pedi carona, ai que vergonha. Tratei de consolá-la dizendo que era normal, coisas da vida. Meu amigo que havia cedido lugar indo pro banco de trás permanecia mudo. Conhecendo seu jeito emotivo podia imaginar o que estava sentindo. Tentei puxar assunto, perguntar alguma coisa a ela para aliviar seu constrangimento, mas quando desviei o olhar do trânsito para ver sua reação percebi que ainda chorava. – A gente faz tudo pelos filhos e quando mais precisa não pode contar com eles. A mudez foi a nossa resposta. Eu queria ter mais o que dizer, mas palavras são arredias nessas horas. O silêncio reinou, somente interrompido por confissões curtas. O marido iria ter alta da UTI, mas teve uma piora à noite e teve que ficar. O filho estava escolhendo sua nova cozinha e não pode ir buscá-la. Ela largava tudo para ajudar a ele ou sua nora, mas ele não retribuía. O caminho tão curto ficou longo e estendido como um filme lento cheio de pausas. Chegamos próximo à Praça e parei para ela descer. – Muito obrigado, Deus abençoe. Retribuímos os votos. Ela se foi, mas o silêncio plantado naqueles momentos continuou crescendo, subterraneamente, por baixo das nossas palavras e falações, e continua agora e continuará, por quanto tempo lembrarmos daquela senhora.

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