Para o Sr. G

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O amor é um barbitúrico forte. Nos arrebata e faz a gente beber além da conta. Mesmo aos oitenta e tantos anos fortifica nossas pernas trêbadas para levar-nos de bicicleta até em casa, para lá beber mais e pensar mais nela. Pode ser no soçobrar de um barco na travessia cotidiana que o amor surge e nos põe de joelhos e faz a gente se declarar em público, frente a homens, mulheres, gaivotas e peixes. “É você minha amada, a mulher que eu sempre esperei, aqui estou a seus pés, diga o que você quer, venha ser minha esposa”. Ou pode ser confessionando para um turista desconhecido que entra na padaria da cidade litorânea.

Conheci o Sr. G quando fui comprar pão lá em São Francisco do Sul, e ele me falou da sua paixão pela senhora sua vizinha, mulher correta que não está disposta a novas aventuras depois da viuvez. E lá estava ele, copo em punho, latas vazias embaixo da mesa para manter uma discrição impossível, um homem oitentão disposto a beber, cantar e fazer “vergonhas” em público. Não importava nada, o sentimento não respeitava idade nem experiência, o amor rejuvenesceu aqueles cabelos brancos e o lançou em uma adolescência cheia de hormônios e esperanças. Não foi uma conversa, era um monólogo, Sr. G estava apaixonado e queria falar da sua amada e do seu amor aos quatro ventos.

Minhas orelhas vieram a calhar. Sentei com ele e recebi suas palavras embaralhadas com a maior atenção possível. Depois, aliviado com suas confissões, comprou mais umas latinhas e foi embora pedalando, num equilíbrio impossível que só apaixonados conseguem