Dona Avenca

Hoje, depois de 40 anos de espera, adquiri um pé de avenca. Tá lá, bela e linda, frondosa e leve. Eu acho mesmo que a avenca é tão bonita que deveria ser uma árvore. Avenca para mim é o bonsai brasileiro. Quando vou na casa de alguém e tem um pé de avenca morro de inveja, digo, morria de inveja, porque agora também sou um abonado proprietário de um belo exemplar de avenca. Não sei se posso dizer que sou proprietário porque as lendas que correm sobre a avenca podem revelar o contrário. Mas vou ficar com a lenda que gosto mais, a que diz que o pé de avenca revela como vai o astral das pessoas daquela casa. Ela, sensível que é, murcha quando as coisas vão mal e fica viçosa quando as coisas vão bem. É realmente um aparelho de detecção de astralidade muito prático, e o melhor, só precisa de água, sombra e pouco vento.

Hoje eu comprei essa preciosidade por 12 moedas, eu pagaria até 100 por uma avenca por perto me dizendo que estou bem, e não sei se pagaria mais ainda porque ela indica tremores na minha aura e me alerta para me cuidar, e depois fica alegre e vistosa novamente, indicando que eu já estou melhor. A opinião dos outros é sempre muito importante e a opinião de uma avenca é mais ainda, porque ela não tem outros interesses além de água, sombra e pouco vento. Por falar nisso, foi a vendedora que me deu essas orientações e também me explicou que água é só uma vez por dia e que ela não gosta de adubo nem terra petra. Esse detector de sensibilidades domiciliares tem algumas exigências mas todas são bem simples: por ter uma forma leve e espiritual a avenca não gosta de acidez na terra, nem solo muito socado, a experiente vendedora me indicou pó-de-xaxim e pó-de-casca-de-coco para adubar a poderosa. Acho isso razoável, pela função que ela exerce, afinal uma médium particular tem suas idiossincrasias.

Sempre via as avencas nas casas alheias e ficava babando, tentando descobrir algum significado no desenho das folhas e na coloração geral da mãe de santo vegetal. Esses tempos vi uma linda, bem leve, arejada, verdinha, mas os espaços entre as folhas denotava uma certa falta de comunicação entre os membros daquele lar. Uma que via antigamente era perfeita para detectar os maus humores de sua dona, uma legítima descendente alemã do norte do Paraná. Mas o estranho é que sempre via apenas uma em cada casa, até que, em União da Vitória, encontrei a grande fábrica de avencas do mundo. É na casa de dona Marlene, mulher muito prendada que faz um rango ótimo, e no seu quintal vivendo felizes abaixo de uma palmeirácea baixa, milhares de avencas lindas, maravilhosas, parece até mato, mas não é. São centenas de avencas irmãs, saudáveis, brincando na sombra, com água uma vez por dia e pouco vento. Encostadinhas a um muro úmido elas estão no céu das avencas, e assim protegidas fogem até das geadas muito constantes naquelas terras.

Agora, orgulhosa e linda está minha avenca em cima da geladeira, na cozinha. Coloquei ela lá porque é sombra, claro, e também porque é um dos poucos lugares da casa que não tem vento constante, morando nessa terra litorânea de João Pessoa. Agora ela fica ali, ornando a cozinha com seu jeito de renda viva. Para sua companhia coloquei meu porco de barro, que é meu cofrinho de moedas, e uma canequinha vermelha de ágata, de tomar cachaça. Não canso de olhar e olhar, tomara que ela sempre esteja assim frondosa, meu estado de espírito agradece. Vou aguar todos os dias para receber sua bela e linda cor todas as manhãs, e se ela ficar triste, ai ai ai, melhor nem pensar nisso. Vou curtir minha nova planta caseira, minha Chica Xavier de geladeira, a vocês recomendo essa companhia, eu nunca me senti tão feliz em minha vida.

Raro Avencando de Oliveira – João Pessoa – 4 de abril de 2007

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3 respostas em “Dona Avenca

  1. Olá Raro, como vai sua avenca depois de passado esse tempo?
    Me encontrei lá na sua crônica. Já tive belas avencas, admiro-as sobretudo, mas hoje moro em apartamento e está difícil de fazer vingar. Mas não desisto, Hoje estou com uma beldade lá em casa, sempre cheia de brotos, que secam antes de abrir….minha aura não deve andar lá essas coisas né? rsrs. Falo com ela todas as manhãs e desejo bom dia!!!
    Não sei porque, mas ainda espero ser correspondida….

    ah! Tbm curto Neruda e Hermann Hesse…

    Abraço!!

    Nelbe

    • Nossa! Quantas coincidências! Qual será a relação das avencas com o Neruda e o Hesse? Hoje tenho novamente uma avenca de apartamento, mas a luta por mantê-la viva é difícil mesmo. Se eu lembrar de alguma dica lhe conto. Boa sorte!

      • Ia perguntar mesmo como se faz para manter a lindíssima viva… infelizmente a minha morreu. AMO avencas, mas não acho que saiba cuidar delas. São mais sensíveis que o amor.

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