Palhaço

Eu uso o transporte público! Com essa frase de introdução parece que farei uma crônica de protesto, ainda mais com um título desses. Mas quero me corrigir, na verdade eu uso o transporte coletivo! Sim, porque o transporte não é público, o passeio é público, a calçada é pública, as praias são públicas – algumas – o ar poluído é público, as coisas gratuitas da cidade são públicas, mas o transporte é privatizado, terceirizado, concedido ou outra barganha qualquer com fins político eleitorais. Deve ser público só para os “grandes” homens públicos que andamos elegendo. Ah, mas eu falei que essa crônica não era de protesto, então não falaremos de política, afinal falar “disso” e não protestar está difícil ultimamente.

Eu uso o transporte coletivo! Essa é maneira bonita dos políticos – ai, olha eles de novo – falarem desse serviço de ruim a péssimo que temos nas cidades brasileiras. Esse “coletivo” dignifica o transporte e o serviço, dando um ar de democracia. Mas essa não é a verdade do dia a dia, todos sabemos. Então vou usar o termo que melhor explica essa tragédia diária.

Eu uso lotação! Isso, agora sim, lotação é antigo mas define bem o que eu uso. Sempre cheio nos horários que a gente mais precisa, seja expressão, expressinho, micro-ônibus, ou van. Vamos abarrotados e lotados nos transportando de um lugar para outro como formiguinhas enfadonhas e repetitivas.

Aqui onde vivo, nos ditos ônibus biarticulados, adotaram como padrão um sistema de áudio para amansar o povo. A trilha sonora vai girando pela música clássica, a instrumental sem sal e alguma música popular também sem vocal. Tudo para acalmar a gente que tá ali puto e apertado. Já escutei de um rapaz com jeitão underground que a situação lembrava filmes da Alemanha nazista – a gente se apertando lá dentro, a maior atrocidade rolando, e o som ambiente nos acalmando com um belo e harmônico Mozart. Acredito que ele tem razão, já vi cenas de filme assim, mas não vamos chegar a tanto né gente. E afinal, qual era o assunto mesmo? Ah! Palhaço!

Palhaço! É o nome de uma música do Egbeto Gismonti que volta e meia se repete na programação sonora do lotação. Adoro ouvi-la quando estou lá tentado achar um espaço para pôr os pés ou fugindo de um cotovelo mais pontiagudo que passa. Vou acompanhando a melodia e tudo fica mais bonito, até mais espaçoso. Curioso, procuro os outros passageiros para ver as reações e sempre encontro alguém que de repente ficou com brilho diferente no olhar ou revelou um sorriso no rosto antes carrancudo. Sei lá, não sei se é viagem, mas essa música tem esse poder. E de repente, ao som de Palhaço, só para aqueles que não estão entretidos com seus fones de ouvido, um sol amarelo, inocente e risonho entra no picadeiro do nosso ônibus.

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