O último sorriso de um homem

Ele estava morrendo, e sabia. Internado com certo conforto num quarto particular de hospital assistia o ir e vir dos parentes consternados, das frases de consolo, da esperança e também das orações desesperadas. Dentro do possível se alimentava e dormia, mas em sua ânsia de vida queria mesmo é estar acordado. Insistentemente procurava interagir com todos que apareciam, e cobrava que outros o visitassem. A todos queria exprimir a mesma certeza: iria sair logo dali, pois para Deus nada era impossível e tinha fé em sua cura. Para os visitantes restava certo choque entre as palavras tão cheias de vida de um homem que estava cada vez mais magro e debilitado, e a cada dia revelando um pouco mais sua face de ossos e seu esqueleto, como todos nós somos por baixo.

Os cochichos entre os parentes exprimiam outra história, não havia mais jeito, era esperar só o fim previsível. As enfermeiras iam e vinham com cuidados levemente desleixados, de quem sabe que eram só paliativos. Ele procurava manter-se digno e vivo. Encantava a todos com palavras de afeto, confissões do passado, memórias incríveis de 71 anos bem vividos. E lógico, galanteios às enfermeiras mais carinhosas ou de formas mais abundantes. Apesar de manter-se de pé, mesmo estando deitado em sua cama de hospital, ele não era homem de muitos risos. Havia uma seriedade nas coisas que falava, próprio de um militar reformado cheio de disciplina, e que sempre se mostrou desajeitado para entender piadas, e também não as fazia. Guardava sua alegria para outros assuntos, como sucesso, progresso e desafios.

Mas aos poucos os sussurros foram ficando mais altos, as pessoas deixaram a discrição de falar frases de desesperança somente fora do quarto, muitas vezes o faziam perto do homem que se recusava a ser moribundo. E apesar das altas doses de morfina, dos tratamentos dolorosos e da aparente sonolência, mantinha-se atento ao que acontecia à sua volta, muitas vezes completando frases ou dando informações: “—foi no ano de 1967…”, “—número 1321 da Cândido Benício”, “—não foi assim não, estava o tio Justus e a mamãe”, e assim ia interagindo com conversas e sofrimentos.

Sempre que possível queria levantar-se ou sentar-se um pouco. Gostava de ficar no sofá das visitas e era uma operação ajudá-lo nessa tarefa, pois apesar de estar muito magro era um homem grande e de ossos fortes. E lá ia ele para o sofá com soros e remédios injetados. Ali, se sentia bem, pois saía da condição de doente e se tornava por alguns minutos, visitante de si mesmo. Num desses momentos sua irmã ficou reclamando de umas dores nas costas e de outras mazelas. Fiquei um pouco indignado com sua falta de sensibilidade para ficar reclamando da vida diante de um homem que estava dando uma prova de grande coragem e mantendo o bom astral em condições tão difíceis. Em tom de ironia e aproveitando que ele estava no sofá falei: “—tá incomodada? Fica na cama dele!”. Não sei direito por que, mas ele viu grande graça nessa história e riu muito, muito mesmo, talvez pela ironia e talvez pela morfina. Foi um riso como há muitos anos eu não o via ter. E o constrangimento que poderia ter surgido entre os parentes se dissolveu totalmente diante da sua alegria. A gargalhada terminou com uma frase que eu sempre gostava de ouvir dele: “esse Raro é um gozador”.

Essa foi sua última risada, no dia seguinte o meu pai morreu de câncer.

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5 respostas em “O último sorriso de um homem

  1. Raro, que lindo texto, eu lamento de todo meu coracao que seu pai tenha morrido, mas a sua descricao da vida dele foi linda, espero qeu isto esteja lhe confortando…lembro que visitei seu pai e menti que era sua namorada…para ele gostar um pouco d emim como eu gostava de vc…mas fui pega por vc desprevinida na volta…rsrsrs…seu pai é muito jovem…Ele está com Deus e bem …tenho certeza…meu pai tb tem 71 anos.

  2. Raro,
    Linda a crônica sobre seu pai. Acho que a essência do que ele era está muito bem expressa aí. Tantas lembranças tenho dele e quase todas vindas apenas do que vc me falava sobre ele. O conheci melhor assim….

  3. Ao ler esse texto um choro sincero me escorreu do peito, não por identificação com a história, nem por pena de quem fica quando alguém parte, mas por sentir, através da delicadeza de sua palavras, seu amor por seu pai. Raro, obrigada por compartilhar a sua vida conosco.

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