Retratos do Rio IV

— Valeu motô por ter afoguetado nossa viagem!

Essa frase veio no fim da história, mas vou contar do começo o causo. 636 – Praça Saens Peña – Gardênia Azul, é o número e itinerário do ônibus, os nomes são chiques e até perfumados, mas não é bem assim na real. Peguei o dito logo após a meia-noite e as ruas já estavam vazias. Nosso audaz motorista literalmente vôa em seu bólido de metal. A pilotagem louca faz curvas impossíveis de não capotar e de tirar finos e raspões dos postes e árvores do caminho. Seu estilo de pilotar toma nossa atenção, estamos tensos mas felizes, afinal vamos chegar mais cedo em casa, se não chegarmos mais cedo em outro lugar.

Na altura do Engenho Novo um segundo ônibus que segue vazio e também com um motorista ousado, acelera e ultrapassa nosso coletivo. Nosso piloto não deixa por menos e emparelha na subida tentando ultrapassar pela direita, quando subitamente recebemos uma bruta fechada que quase nos leva a beijar o primeiro poste. Essa disputa era um senha, um sinal, e eu não sabia. Em uníssimo muitos passageiros começam a soltar berros e gritos de apoio ao nosso motorista e xingões irreprodusíveis para o outro. Se inicia uma perseguição desvairada, nós contra ele, muitos gritos  e palavrões acompanham. — Passa ele motô! — Pega o &*%$! — Bate nele! Bate nele! Meu motorista, digo nosso, não faz por menos e consegue finalmente ultrapassar humilhantemente o adversário. Ufa, acabou…

Não, não acabou nada, quando passamos ao lado do rival na hora da ultrapassagem soltamos diversas frases de baixo calão para urrar nossa glória, — filho daquilo, — burro, — safado, etc. Mas o causo não termina por aí, digo, a vingança ainda seria servida. Os passageiros em uma sintonia telepática com o motorista berram para ele esperar o outro, nosso herói bem feliz fica fazendo hora, remanchando no trânsito para ser alcançado, e quando o nosso algoz vai finalmente nos ultrapassar o Ayrton (esse deveria ser o nome do nosso motorista) com um movimento brusco de volante joga o ônibus em cima do outro despachando-o para cima da calçada e de um muro. Rííííííííííííí soa a freiada súbita e também ressoam nossos berros tribais que comemoram como um gol a nossa excelente vingança. Ah, que delícia o prazer desse sentimento compartilhado por homens, velhos, jovens, crianças de colo, grávidas, estudantes, malandros e eu.

A maioria da turba desce em Cascadura e os elogios direcionados ao nosso Ayrton são arrematados por: — Valeu motô por ter afoguetado nossa viagem!

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4 respostas em “Retratos do Rio IV

    • Valeu a grata visita meu amigo. As ensandecidas corridas de ônibus ainda são uma rotina no nosso velho Rio de Janeiro, quem não viveu talvez não entenda a bizarra “graça” dessa aventura.

  1. Genial, cara. Parabéns demais! Suas crônicas são alucinantes.
    (depois escrevo mais, deu vontade de dizer várias coisas).
    (peguei muitos e muitos 636, 266, 267, várias lembranças)

    • Ô Antonio, que bom que chamou minha crônicas de “alucinantes”, foi o melhor elogio que já recebi na vida! Mande seus casos dos meias-três-meias na vida.. Grande abraço!

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