Um outro pé de pequi

Assistindo a um desses programas rurais aprendi que os pés de pequi não dão frutos quando estão sozinhos. Isso dito já seria o bastante para minha crônica do dia, mas muitos leitores ficarão me inquirindo e dizendo que isso não tem pé nem cabeça. Olha gente, pé tem, tá no título e a cabeça é a minha que ficou elocubrando essas coisas depois da lição de agronomia.

Um pé de pequi precisa de pares para dar frutos, tem aquele lance dos polens voando pra cá e pra lá. E aí o pequizeiro engravida e dá um monte de pequis. Eu nunca vi um pé de pequi pessoalmente, e também não gosto do fruto. Quando morava em Belo Horizonte tinha a época do pequi, e toda a cidade era tomada por aquele cheiro, pois nas calçadas os ambulantes ostentavam as banquinhas do fruto de amarelo característico.

Eu nunca pretendi colher pequis, nem plantá-los para comer suas iguarias. Mas eu sonhei e muito em dar frutos, qualquer fruto. Talvez meus frutos não fossem tão famosos como pequi, ou como saputi, mas eu sonho em frutificar. Porém, como era o caso do pequizeiro da reportagem não consigo dar frutos se não tenho outro pequizeiro por perto. Nisso, meu caro agricultor plantador de pequizeiro, me identifico plenamente com essa espécie. Me sinto assim, uma árvore que deveria dar fruto, mas não dá.

Ai que triste solidão que me deixa seco, sem o pólen que troca e promove a fertilidade. E não é de qualquer companhia que sinto falta, quero um parente de frutos. Quero saber de suas delícias, e ser polenizado por elas. Quero ver a revoada de pássaros nos seus galhos e que esses mesmos pássaros que cutucarem suas flores venham se empoleirar em mim também. Rindo atoa eu ficaria se ao menos um outro pequizeiro viesse a se instalar aqui perto. E topasse frutificar juntos. E se fossem vários? Delírio!

E nossos frutos e frutas seriam deglutidos em culinárias desconhecidas, ou mastigados em bocas estranhas, ou picados, socados, secados, misturados em todos os caldos que existem por aí. Eu seria o pequizeiro mais feliz do mundo. Um pequizeiro sorridente, um pequizeiro todo oferecido em galhos, flores e folhas, e claro, em pequis. Gente esse tal pé de pequi, solitário como eu, me emocionou tanto que já estou gostando do pequizeiro real, aquele que dá o fruto amarelo que eu nunca gostei, mas que agora faço questão de provar.

Vou ser pequizeiro no mato, e convido a todos que também queiram “pequizar” comigo que venham. Vamos fazer uma chuva de pequis alegres com cheiro de felicidade. Chega dessa tristeza de árvore sem fruto. Viva o pequi!

Raro de Oliveira – 7 novembro 2010

Legenda: Pé de pequi – foto Fábio Soares

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