Imagine.

Imagine. Preciso da sua ajuda. Imagine. Há em algum lugar uma imensa parede branca. Muito ampla ela toma conta da sua visão. Contemple. Alguém se aproxima, percorre uma grande extensão da parede e coloca um quadro nela, pendurando-o num prego que para nós, visto daqui, era invisível. Contemple. Tá lá o quadro, da onde estamos não divisamos as formas, nem muito das cores, nem linhas. Fiquem calmos, respirem e olhem a parede com o quadro. Se aproximem do quadro, não!, não!, não assim devagar como se estivessem escutando aquelas fitas-cassetes de auto ajuda. Se lancem, mergulhem, se apropriem do quadro. Ah, agora posso ver as formas, as cores, as imperfeições. Vejo como as cores se degladiam, não respeitam os espaço dos traços, e também há traços ofensivos que sobrepujam sua função de controle de forma e atravessam o ar em uma onda sobre outros traços e figuras. Há figuras sim, todas as que quisermos imaginar, com suas cores impalpáveis e as cores vivas. Observo o peso da composição, neste canto é leve, neste lado foi titânico, duro, uma forma coage um pequeno pingo de azul, um respingo toma conta impertinente de um círculo seio, ou fruta, ou bola, que ousadia quiser. Matiz, tons, riscos, pensamentos descabelados de um pincel usado. A moldura transborda, reparo como um tisco de cola sobrou sobre a obra, e a obra do emoldurador também se emoldurou nesse descuido. Passou a enevoar uma assinatura que desconheço. Não me interessa saber nomes, só se tomou o cuidado de compor-se dentro da pintura, ou quem sabe quer excluir-se, fugir, decompor-se dela. E tocando, sim, tocando mesmo, esse crime que os museus não permitem, sentimos os relevos, a trama dos conflitos, o lugar onde aconteceu o erro, a emenda do soneto, soneto porque não? Há música no arranhar dos seus dedos. Roooooóóóóóque, rooooóóóque sobre a tela. Aqui grudou um pelo, aqui faltou tinta, aqui o artista não sabia o que fazer, endoideceu. Lamba, ah, desculpe, você é pudico e não faria isso. Lamba essa bosta de quadro, beba-o se possível! Ah, alguém me avisa, tem chumbo nessas tintas, é verdade, tem chumbo sim, por isso mesmo lamba! É perigoso lamber chumbo, é perigoso viver também, quantos outros venenos não lambemos? O chumbo dá densidade as cores, sinta o peso do veneno chumbo, talvez alguém descubra diferentes sabores nas cores, delícias escondidas em outros lugares. Azul gosto da Prússia? Vermelho Pérsia? Procure um vazio, deve haver, sempre há um vazio, um espaço para as pinturas virem respirar na superfície. Arrrrrrrrrr.. respire, cheire esse vazio, rosto colado num canto de formas. Cílios pincéis alisando as texturas, o ar que condensa muda os reflexos das cores. Agora afaste-se, saia, corra daí, fuja, fuja, fuja, fuja! Volte para aquele lugar longe, em que olhava a parede branca. Aguarde o tempo que achar necessário para sentir que foi o bastante. Aviste, olhe novamente a parede. Aprecie o imenso retângulo branco, o quadro, e tudo o que você sabe agora.

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2 respostas em “Imagine.

  1. Que sensibilidade! Parabéns, viagei através destas palavras.
    Claudia – Escola Estadual Moreira Salles – Pr

    • Ô Claudia, valeu a visita, sensibilidade a sua de gostar desse texto meio devaneiado.. rs.. vc deve ser uma das poucas leitoras que chegou até o fim.. e ainda comentou!!! Uhuuuu!!! Ganhei minha noite! Apareça sempre.. fiquei animado de escrever mais.

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