Cheiro de terra molhada

Embarco. Destino Rio de Janeiro. Pela janela a bonitinha e gelada Curitiba me diz tchau em grande estilo: frio, vento e chuva. Respondo até breve! Porque voltarei, por que sempre volto? Embarco, acho que pela primeira vez, desde que me tornei adulto semi-responsável, viajo com pouca carga, uma mochila só, três cuecas, três meias e os etceteres de sempre. Agora, quando fui acomodar a mochila percebi que não trazia a costumeira máquina fotográfica, talvez ela tenha se tornado grande nos últimos tempos. Tenho feito muitas mudanças, não no sentido de metáfora, mudanças mesmo, bagulhos, quinquilharias, caminhão, caixas cheios de livros. Livros! Caramba, não trouxe nenhum! Como posso viajar sem eles, ou talvez uma revista que é um tipo de livro descartável? Mas aqui estou sem livro e sem máquina fotográfica. Qual será o significado deste acaso? Fotografias lembram lazer, e eu não fotografo tão bem assim para tratar desse assunto profissionalmente. Livro sempre é prazer, mesmo os chatos, mesmo os de trabalho – os meus têm muitas figurinhas divertidas. Não consigo levar as letras a sério, elas sempre me suscitam pensamentos recheados de emoção. Escutei o Thiago de Mello esses dias, ele dizia que a cabeça também era fonte de fortes emoções e o coração podia pensar muito bem. Talvez não fosse exatamente isso o que ele dizia, mas como grande poeta que é, me perdoaria.

Minha mão não cansa, vou manuscrevendo e embarcando nesse vôo de papel pautado. As palavrinhas vão deslizando por elas. Não meço o comprimento das linhas, nem conto sua altura, mas as pautas – palavra com som antigo meio em desuso – vão ordenando tudo, a minha revelia, já que não sou muito de pôr ordem nas coisas. A vida é toda desordem, nós a ordenamos e depois desordenamos de novo, quando vamos envelhecendo. Ou será o contrário?

Pausa

Grande pássaro de metal caminha retumbante pela pista de cimento. Piloto anuncia a decolagem, esse bicho é mesmo de voar, rodar não é seu forte, vamos ao vôo então… alguns segundos de “será que vai subir?”, asas postas ao lado, se fosse humano esse pássaro estaria primeiro de asas retraídas que se estenderiam no momento exato do salto… mas não é… o bicho pega velocidade, sinto o chão fugir, vai vai vai vai… ufa, pronto. Em meio a chuva partimos, já passamos por ela, agora só nuvens, não há gotas, abandonamos os respingos para trás, branco, branco, branco, potência cortando o céu… tempo infinito de subida resumido a alguns segundos. Branco, branco, branco, o céu é branco, a chuva era ilusão. Sinto que o avião sobe, sei pela leve inclinação de vôo, e o ensurdecer do ouvido. Branco, sacode, branco, o avião resvala nas coisas de algodão, sobe, inclina, sacode, branco. Um leve calor de sol me atinge, não o vejo, tudo branco, agora um branco mais iluminado, intenso, quente. O branco pode ser quente? Um apito chato apita lá no fundo, perto dos banheiros, pelo jeito é normal, nenhuma bela aeromoça passa. O branco esquenta, sacode, resvala, escorrega no ar, o branco ofusca. Metal contra nuvens, não era uma música do Renato Russo? Risos. Sim, sou desse tempo do Renato poeta do rock, que fazia a adolescência alienada – inclusive eu – cantar poesia, falar de homossexualismo, chorar pela aids. Metal sacode. Piloto nos acalma. Eita céu esburacado. Será que esses são os tais buracos da camada de ozônio? Dizem que ozônio tem cheiro, parece com cheiro de terra molhada depois da chuva. Por que será que amamos tanto esse cheiro? O que nos lembra? Ao que nos remete? Acho que nos remete ao divino, ao inexplicável. A pura e simples fé. Será que o cheiro de terra molhada depois da chuva será um dia engarrafado? Não acredito, a gente sabe do seu valor e por isso não o aprisionaremos, as coisas mais preciosas não devem ser guardadas. Os guaranis acreditam que Deus é aquela bruma da manhã permeando a floresta. Pensando bem, acho que Deus deve ter cheiro de terra molhada.

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