Acordei surdo e mudo

Acordei surdo. Quase surdo, claro que ouvia, mas ouvia mal. Zumbido, ecos, nada funcionava direito na minha orelha, principalmente a direita. Fui levando, como bom macho que odeia ir a médicos e admitir doenças. Um, dois, três dias e  nada. Tirei proveito de algumas situações, as vezes é bem conveniente se passar por surdo, e também me ferrei em outras.

Na caminhada matinal com meu companheiro de tentativa de exercício foi um martírio. Como diria a esposa dele “a gente conversa mais que caminha”, é verdade tenho que admitir, mas só caminho porque converso, e taí uma boa justificativa para o exercício. Nossa caminhada surda foi fogo, ele me contou um monte de coisas, me explicou várias outras e eu nada, não entendia bulhufas, fui levando, mas uma hora me envergonhei e abortei a última volta no parque. Sei lá, ele poderia estar contando algo importante.

Também tirei proveito. Estranhamente (talvez um médico possa explicar) eu ouvia melhor as coisas de longe e não ouvia nada bem de perto. Deitado na cama ouvia os sons dos vizinhos, no restaurante a conversa de outras mesas e assim por diante. Tive então uma luz: a audição é responsável pela profundidade do mundo! Caramba, fiquei muito feliz com isso, me achei um gênio. Com a surdez invertida o perto ficou longe e o longe ficou perto, foi demais, uma viagem nas perspectivas, Leonardo da Vinci e Einstein ficariam felizes comigo.

Depois fui ficando mudo. Quando a gente não ouve direito parece que não dá pra falar, não é só porque não escutamos a nossa voz, também por isso, mas porque fogem os argumentos, as idéias. Descobri que eu dependo de ouvir muito para poder falar, fiquei mudo, sem assunto, apático, sem graça, sem sal. Quando estive uma vez na europa foi assim no começo, não entendia portanto não falava. Aos poucos juntei espanhol, francês, inglês e gestolês e fiz minha salada de comunicação. Não entender o que se fala também é ser meio surdo, aí ficava mudo.

Essas e outras coisas que agora não me recordo me fizeram tomar uma atitude, tratei a surdez, método caseiro é claro, e não queiram a receita. Agora estou falante de novo, até escrever fica melhor se a gente pode ouvir a profundidade das coisas nas distâncias certas. Na somatória de vantagens e desvantagens decidi: não quero mais acordar surdo e mudo.

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