A bola cor de laranja

O Rio de Janeiro fica vazio no carnaval. Essa afirmação parece meio estrambólica mas é verdade. Fica vazio nas ruas que levam ao trabalho, nas repartições, nas grandes avenidas. Dirigir no subúrbio turbulento do Rio nesses dias é uma beleza, pois podemos apreciar as vias e casas e não só sobreviver ao trânsito enfurecido.

Nessas andanças passeio pela Marechal Rondon, via expressa que liga o Méier à Vila Izabel. Mesmo com a cidade mais calma a “Rondon” tem bastante movimento e estava atento ao trânsito. Quando subitamente uma bola, poucos metros a frente, cruza a rua quicando. Atravessa cerelepe sem tocar nos carros, ou ao contrário, e chega ilesa ao outro lado.

Mesmo na supresa do acontecido pude notar que a bola era alaranjada e bem surrada. Saiu voando de uma casa antiga e simples, com muros altos que tentavam se proteger do barulho e da poeira do trânsito. Não vi mais nada, mas continuei elucubrando, como é tarefa do poeta. Fiquei imaginando os meninos por trás do vôo da bola. O chute que vazou o gol ou talvez o chute torto. A disputa de futebol num corredor estreito, como eu mesmo fiz muitas vezes na minha infância, o susto dos moleques pela bola que escapou para a rua. Fiquei imaginando os risos e as gargalhadas depois da surpresa. E também a aventura de buscar a bola, antes que a alguém a catasse.

Mas o sentimento maior foi de intromissão, uma invasão muito bem-vinda no mundo dos adultos, o mundo sério das ruas e avenidas feito só para carros. Porque as ruas também são para os meninos, como diria Ziraldo, são para andar a pé, fechar a rua com golzinho, jogar béts, soltar pipa, namorar. E aquela bola intrusa desbravou a via  me lembrando que havia outro mundo ali tão pertinho, outro teatro da vida acontecendo e não tão visível. O teatro da infância e do ócio.

Aquela bola vazou para o meu mundo sério, era um satélite extraviado navegando pelo tempo de mim mesmo.

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Certa vez eu e meu irmão fabricamos algumas gaivotas, aviões de papel, e ficamos jogando da varanda do terceiro andar de um apartamento que dava para uma rua movimentada. Era uma das nossas diversões preferidas. Estávamos lá, numa varanda cheia de poeira de asfalto, “pesquisando” a ciência do vôo, a forma, o desenho das nossas gaivotas de papel. E uma delas, marotamente teceu um vôo mais agressivo. Fez uma curva mais ágil e se lançou suicida na janela de um carro que passava. Era a janela do motorista que foi atingido pela gaivota kamikase. O homem teve um grande susto e quase ser perde na direção. Em uma fração de segundo não haviam mais indícios de nosso crime de papel. Estávamos sentados inocentemente no sofá, com a maior das caras lavadas, mas o coração disparado.

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