Biblioteca da Infânciaa

Revi nessa semana a biblioteca da minha infância. Na minha escola lia os livros indicados pela professora de português, e não me lembro se havia biblioteca. Mas, no bairro, numa casa antiga e caindo aos pedaços havia a Biblioteca de jacarepaguá. Lá havia outros livros mais “interessantes” e que abriam novos horizontes para minha vida. Livros maravilhosamente impróprios para minha idade, e também os grande clássicos que a escola achava inadequados pelo seu volume. Não achem que eu li muita coisa por lá, acho que só folheava e respirava aquele mistério que as bibliotecas têm. Na verdade, teve uma época que andei emprestando e lendo alguns livros impróprios, que logo sucumbiram a censura familiar. Mas me inspiraram para outros que acabei conhecendo depois.

Então, passei lá na Biblioteca e a placa, por incrível que pareça, é a mesma, o estado da casa, ainda decadente, as estantes apertadas para o acervo, continuam se inclinando perigosamente, e o cheiro de mofo em papel presente como naquele tempo. Em meio a turbulência que se tornou meu bairro da infância hoje, a biblioteca é um templo de silêncio e saudade. Fiquei lá, “cheirando” os livros muito gastos e usados. Encontrei uma edição de Vida Secas com ilustrações de Aldemir Martins, que é mesma que li quando criança. Sempre amei aquele livro e aquelas ilustrações, quem diria que um dia eu saberia o porquê, já que ainda amo Graciliano Ramos e os traços elegantes do Aldemir Martins, a quem tive uma vez meu desenhos comparados (que honra). Também folheei um livro da Cecília Meireles, de onde estraio a poesia que vai nesse texto.

Realização da vida

Não me peças que cante,
Pois ando longe,
Pois ando agora
Muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,
– nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas
e que era a vida.

Deixei um bilhete no livro de assinaturas, agradecendo àquele lugar e alertando aos que ali habitam sobre os frutos que podem gerar, onde descobri minhas primeiras letras independentes.

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2 respostas em “Biblioteca da Infânciaa

  1. Brother,
    tenho umas surpresinhas pra você…

    Primeiro, uma coincidência. Da última vez que fui ao Rio também fiz questão de visitar a querida biblioteca de Jacarepaguá, na rua Dr. Bernadino, pois também entrei no mundo mágico da leitura com livros que pegava lá…

    Segundo, ri muito com sua declaração romântica por ter encontrado lá sua edição preferida do Vidas Secas. Acontece que você tem esta edição, com sua assinatura e tudo, datada de 4/4/81, e está aqui comigo, em Brasília, he he he. Tem até um monte de palavras sublinhadas de colorido, provavelmente foi tarefa da escola, e também as ilustrações que você admira do Aldemir Martins…

    Mas minha principal sensação ao rever a biblioteca de bairro foi a de que quase nada mudou. O espaço continua pequeno, os livros velhos e mastigados, faltando muitas obras clássicas que a população suburbana também merecia ter acesso.

    De qualquer forma, foi lá que conheci George Orwell em “A Revolução dos Bichos” e “1984”, Agatha Christie e Hercule Poirot, e algumas literaturas popularescas norte-americanas: Morris West, Irving Wallace, etc.

    Lá também tive o prazer de ler uns livros meio marginalizados que nunca mais esqueci: “Os caminhos de Katmandu” de René Barjavel, e “Um por todos” de Robert H. Rimmer, Este ano consegui comprar estas raridades percorrendo os submundos dos sebos (reais e virtuais)…

  2. Pô, minha própria edição de Vidas Secas nas mãos alheias. Mas tá bem cuidado. Tenho que admitir que o meu irmão mais velho é quem me guiou para o mundo dos livros, primeiro com a edições resumidas da Edições De Ouro (compradas clandestinamente com o troco da passagem do trem, que era mais barato que a do ônibus), e depois, com os empréstimos da Biblioteca de Jacarepaguá. Alguns dos títulos que ele cita também os li, por osmose, mas não com tanta acuidade literária que ele tem. Infelizmente, o livro “Um por todos” não consegui chegar ao final, e olha que a curiosidade me levaria até lá, mas me foi proibido, “não é época para ler essas coisas, tem que se preocupar com o concurso para o Cefet”, disse meu pai. E lá se foi a literatura pro beleléu…

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