Combinação perfeita

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Todos os brasileiros conhecem bem a foto acima, arroz e feijão no mesmo prato. Talvez no sul ou no norte o feijão seja mulatinho, ou carioquinha, como queiram. Mas o feijão com arroz daqui do Rio de Janeiro, especialmente o da dona Suzana é assim, branco e preto. Quando ela me serviu esses dias com o prato dividido nas duas cores me veio a ideia da foto. Ajustei os detalhes, joguei uma carne seca em cima do arroz e um pouco de arroz em cima do feijão e tava pronto. O prato perfeito, equilibrado, harmônico e fresquinho. Neste dias aqui no Rio comi ying e yang no almoço e no jantar, e sabe o quê? Estou me sentindo ótimo.

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Toma coca-cola pra ficar careta

Na minha juventude quando saía para alguma noitada, e ficava meio acima do ponto, as vezes precisava tomar uma coca-cola. Naquela hora o pensamento era de ficar careta, de segurar a onda, de conter a euforia. Ficar careta significava mais que glicose no sangue para abaixar o teor alcoólico, pois ainda hoje tomo a dita com esse objetivo mesmo quando não “tomo umas”. Coca-cola significa pra mim o conformismo, a rendição diante do domínio do senso comum.

Lógico, necessária como remédio, a coca-cola me centrava e mantinha meu equilíbrio. Fazia eu voltar a terra, a caretice sem delírios, sonhos, e muito menos utopias. Também servia para o oposto, triste ou sorumbático, bebericava o líquido negro e gasoso, e recebia a alegria em lata.

Não odeio coca-cola, pelo contrário, amo-a, principalmente acompanhando a pizza que minha mãe faz, perfeita sintonia. Mas fico repensando esse pensamento da juventude “pra ficar careta”. Os caretas são os que estão conformados, ou são os que preservam as tradições? Ficar careta na juventude é um contrasenso ou uma necessidade?

Acho que não serei capaz de responder a essas perguntas, apenas provocar coceira nas idéias. Pensar nesse conformismo vendido em latas, potes ou sacolas e a coca-cola como ícone. Fiquei bem careta em minha juventude, talvez devido ao consumo desse precioso líquido. De tão careta que fiquei que acabei vivendo uma segunda idade descolada e sem regras, numa adolescência tardia.

Mas, vou tomando coca-cola quando a coisa aperta, e se possível com a receita de pizza da minha mãe.

Biblioteca da Infânciaa

Revi nessa semana a biblioteca da minha infância. Na minha escola lia os livros indicados pela professora de português, e não me lembro se havia biblioteca. Mas, no bairro, numa casa antiga e caindo aos pedaços havia a Biblioteca de jacarepaguá. Lá havia outros livros mais “interessantes” e que abriam novos horizontes para minha vida. Livros maravilhosamente impróprios para minha idade, e também os grande clássicos que a escola achava inadequados pelo seu volume. Não achem que eu li muita coisa por lá, acho que só folheava e respirava aquele mistério que as bibliotecas têm. Na verdade, teve uma época que andei emprestando e lendo alguns livros impróprios, que logo sucumbiram a censura familiar. Mas me inspiraram para outros que acabei conhecendo depois.

Então, passei lá na Biblioteca e a placa, por incrível que pareça, é a mesma, o estado da casa, ainda decadente, as estantes apertadas para o acervo, continuam se inclinando perigosamente, e o cheiro de mofo em papel presente como naquele tempo. Em meio a turbulência que se tornou meu bairro da infância hoje, a biblioteca é um templo de silêncio e saudade. Fiquei lá, “cheirando” os livros muito gastos e usados. Encontrei uma edição de Vida Secas com ilustrações de Aldemir Martins, que é mesma que li quando criança. Sempre amei aquele livro e aquelas ilustrações, quem diria que um dia eu saberia o porquê, já que ainda amo Graciliano Ramos e os traços elegantes do Aldemir Martins, a quem tive uma vez meu desenhos comparados (que honra). Também folheei um livro da Cecília Meireles, de onde estraio a poesia que vai nesse texto.

Realização da vida

Não me peças que cante,
Pois ando longe,
Pois ando agora
Muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,
– nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas
e que era a vida.

Deixei um bilhete no livro de assinaturas, agradecendo àquele lugar e alertando aos que ali habitam sobre os frutos que podem gerar, onde descobri minhas primeiras letras independentes.

Palha de estrelas

A infância de seu Alberto em Coimbra foi extremamente pobre e profundamente rica. Ele conta que não tinham sapatos, só tamancos de madeira e couro e em certa época do ano viviam como pastores de ovelhas. Nessas andanças pelas montanhas ele pode viver uma das experiência que recorda com prazer.

No inverno, não havendo pasto para as ovelhas, eles tinham que levar a palha que haviam acumulado para os criadores. Iam de carro-de-boi rangendo e subindo as ladeiras da sua terra natal. Enquanto subiam sofridamente pela estrada ele se deitava sobre a palha e olhava para as estrelas, embalado pelo ranger sacudido do carro-de-boi.

Essa história me lembra outra, da juventude de Pablo Neruda, “O Amor junto ao trigo”:

“(…) Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, o rosto e os braços cobertos de palha. A noite era clara, fria e penetrante. Não havia lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva e, sobre o sono cego de todos os outros, somente para mim cintilavam no regaço do céu. Em seguida dormi. Despertei bruscamente porque alguma coisa se aproximava de mim, um corpo desconhecido se movia debaixo da palha e se acercava do meu. Tive medo. Esse algo se chegava lentamente. Sentia se partirem os talos da palha, afastados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, esperando. Devia talvez levantar-me e gritar. Fiquei imóvel. Ouvi uma respiração muito perto de minha cabeça.

Súbito uma mão avançou sobre mim, uma mão grande, cajejada, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto com doçura. Depois uma boca ávida se colou à minha e senti, ao longo de todo o meu corpo, até os pés, um corpo de mulher que se agarrava a mim.

Pouco a pouco o meu temor se mudou em prazer intenso. Minha mão percorreu sua cabeleira com tranças, um fronte lisa, os olhos de pálpebras fechadas, suavas como amapolas. Minha mão continuou buscando e toquei dois seios grandes e firmes, nádegas amplas e redondas, pernas que me entrelaçavam, e mergulhei os dedos em um púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca desconhecida.

Como é difícil fazer amor sem causar ruído em um monte de palha, compartilhado por mais sete ou oito homens, homens adormecidos que por nada do mundo devem despertados. Mas o certo é que tudo se pode fazer, ainda que custo cuidados infinitos (…)”

Quem quiser ler o resto da história procure Confesso que Vivi de Pablo Neruda.

Vinho das cerejas

Seu Alberto me conta da sua operação de ponte de safena. Ele deve ter um complexo rodoviário no peito, de tantas pontes. Depois de uma das operações ele ficou profundamente anestesiado, dormindo. Enquanto dormia e seu coração se recuperava, uma recordação de infância lhe perseguia…

Em Portugal sua família era muito pobre, mas na terra que moravam de favores a safra de cerejas chegava antes que a dos vizinhos. Toda a família se reunia para a colheita e num surrado caminhão iam para a cidade vender a bons preços. Era um dia de festa e especialmente lucrativo, por isso ao voltar para casa, seu pai se dava ao direito de tomar uma caneca de vinho na estalagem que havia no caminho.

No seu pós-operatório esse sonho persistia em sua mente, a lembrança do seu pai tomando vinho na estalagem, no dia da venda das cerejas, e a grande alegria que isso lhe proporcionava.

Quando Alberto acordou descobriu que não havia dormido só um dia, mas cinco. Havia cinco dias que estava sonhando com o vinho das cerejas…

Motor

Seu Alberto, homem de portugal que conheci esses dias, chama seu coração safenado de motor. É um tipo melancólico e saudosista, característica marcante dos nossos patrícios. Não é grosseiro como alguns portugueses, pelo contrário, é extremamente doce e cheio de sorrisos. Seu motor anda falhando, e conversando com ele fiquei imaginando por dentro da sua camisa de listras as válvulas e pistões funciando irregulares. Me lembrei da música, “meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito”… e a música segue a melancolia saudosa desse Alberto português, “teu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, o coração dos aflitos, pipoca dentro do peito”, pipoca o motor de fusca dentro do peito do Alberto.