Video game chinês

Esses dias os noticiários andam falando muito dos pequenos estudantes brasileiros, que freqüentam a escola mas não aprendem. Acho que isso tem o pavoroso nome de “analfabetismo funcional”.

Quem já teve algum contato com a população de regiões de baixa renda sabe como isso é comum, e que nem precisava o IBGE para constatar isso. Quanto dei aula no Tatuquara, periferia de Curitiba, os jovens entre 15 e 18 anos sabiam ler, mas não compreendiam, sabiam escrever mas o texto era truncadíssimo e ortografia era uma coisa desconhecida. Também em João Pessoa estive com turmas, lá numa faixa etária de 7 a 10 anos, e a situação era ainda mais complicada. Eu via nos olhos deles como era pavoroso quando um professor pedia que eles lessem ou escrevessem algo, mas todos estavam na “escola”.

Nessas situações sempre procurei subterfúgios para vencer essa barreira e quem sabe um dia despertá-los para esse prazer que é muito mais que necessidade básica. E já que a leitura e a escrita são projeções do pensar e do falar, eu inventava coisas com criação verbal (oralidade), desenhos, debates, organização de idéias, e a boa e velha interpretação de texto, que podia ser interpretação de imagens também. Parece que funcionava, sempre depois de um bom bate-papo, troca de idéias ou desenhos, as letrinhas parecem que fluíam mais facilmente.

Mas não estou aqui para defender nunhuma nova didática emergencial de salvação da pátria, só quero mesmo é compartilhar um sentimento que me veio a cabeça (sentimento vem a cabeça?) quando escutei hoje essas notícias. Fiquei relembrando como as crianças (mesmo as mais machucadas pela vida) são capazes de aprender, aprender de tudo (bom ou mal), como são fisgadas pela curiosidade e até pelos desafios, como são flexíveis em seus corpos e em suas mentes, como podem (ao contrário dos adultos) aprender duas ou três línguas brincando, abarcar geografias, matemáticas, histórias, portugueses, biologias, etc em suas mentes. Claro que isso não é uma percepção nova, mas é a percepção contrária que vejo nas atitudes dos professores, que acreditam que aquelas “pequenas pessoas” sofrem para aprender.

Eu queria que os professores vissem a infância dos seus alunos como uma oportunidade única, onde as mentes estão tinindo, prontas para descobrir o mundo. Que vissem com olhos otimistas seus pupilos e não com olhos desiludidos, que os contaminassem com a fagulha que incendeia a mente, a fagulha da curiosidade, do saber mais e se divertir com isso.

Claro, estou delirando, não posso esperar muito dessa geração de professores, quem sabe da próxima. Mas enquanto isso vou tentando fazer minha pontinha de participação. Àqueles que não acreditam, que acham que os “analfabetos” não lêem e não tem jeito, eu desafio: dê para eles um video game em chinês e veja o que eles serão capazes.

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