Pipas, pagagaios, arraias e o que mais voar

Era Junho no meu tempo de criança e estava chegando as férias de meio de ano. Além da chateação de ensaiar as coreografias para a festa de São João, das professoras sem criatividade, era tempo de soltar pipas. Os ensaios das quadrilhas tinham lá suas vantagens, as vezes dávamos sorte de sermos par de uma menina que amávamos, sim amor mesmo, desejo, amizade, interesse, isso são sentimentos que vieram mais tarde, quando criança eu amava loucamente alguma menina das primeiras fileiras da sala de aula. Como estava dizendo, os ensaios eram legais porque ficávamos sem as aulas de educação física, sempre sacrificadas, ou de alguma aula desinportante, como religião ou moral e cívica. No ensaio estávamos a céu aberto, livres das carteiras e das normas, só submetidos as regras de movimento, cadência e ritmo, coisa que sempre tive muita dificuldade. Nunca sabia a hora de pular “olha a cobra”, ou de entrar no túnel, onde invariavelmente perdia meu chapéu. Se as coisas fossem menos ensaiadas eu me divertiria bem mais. Secretamente eu gostava de me vestir de caipira, sempre amei esse personagem, e sob sua máscara eu me transformava de menino tímido para ator ousado, com caretas, cachimbos, chapéus esgarçados de palha.

Uma vez, não me lembro que idade, tive como parceira de quadrilha uma das meninas esquisitas da turma. Era chamada “carinhosamente” de Dumbo, por suas avantajadas orelhas de abano. Foi uma grande decepção, nesta que foi umas das últimas quadrilhas que dancei no colégio. A coreografia era tipo “moderninha”, tratava-se de um apanhado de músicas folclóricas de vários estados do Brasil. E talvez devido a minha cabeça avantajada, eu adentrava ao meio da roda, acompanhado da minha companheira orelhuda sob os timbres de “oiê muié rendêra, oiê muié rendá, tu me ensina fazê renda que eu te ensino a namorá”. Minha parceira ficava toda alegrinha com esse final amoroso, mas eu, julgando-a feia, não gostava nada daquilo, e cumpria meu papel de caipira avexado que nem olha pra sua esposa.

Gostei mesmo de uma vez que fui parceiro da Lindamar, olha o nome, que sonoro, que portentoso, e ela fazia jus. Lindamar era uma menina bolsista, pois o colégio de freiras era particular, e as bolsistas almejavam a carreira de noivado com Cristo. Mas, Lindamar era uma belezura de mulher, sim, mulher, pois assim eu a via, com coxas grossas que ela tentava esconder sob sua saia plissê azul que ia até os joelhos. Porém, ousadamente, suas pernas torneadas se revelavam, pois já eram coxas de mulher. Seu rosto tinha sempre um largo sorriso tímido, revelando que Cristo estava condenado, iria sofrer por nós e também por não conseguir arrebanhar aquela linda noiva, que já despertava para uma adolescência precoce. Bem, ela foi a minha “partner” em umas dessas festas, e nessa quadrilha abençoada por São João eu bailei com toda minha alegria de jovem mancebo pré-adolescente.

Essas memórias seriam somente fatos corriqueiros se não fosse um encontro casual que tive muito tempo depois, não com a insuperável Lindamar, mas com a outra, a parceira de orelhas avantajadas. Estava esperando o ônibus que me levaria para a faculdade, quando vejo se aproximar uma loira linda, esguia e elegante. Vestia roupas muito colantes que revelavam sua pujança jovial, mas sem parecer vulgar. Era um fenômeno de mulher, ali no meio da plebe que babava. Eu já a olhava com todos os desejos e impulsos sexuais que cabem a um jovem universitário quando tive que me recolher a vergonha de tais pensamentos. Era a Dumbo, sim, a menina que se encantava comigo ao bailar “oiê muié rendêra…”, mas agora, ao contrário daquele tempo passou a três metros de altura me ignorando. Acredito que esbocei alguma reação, mas derrotei-me antes de tentar. Lembrei do meu passado inglório e engoli a indiferença merecida.

Puxa, comecei pensando em falar de pipas, pagagaios e ventos, mas me perdi, deixo essa outra história para um outro amanhã. Vou ficar aqui sonhando com ventos que levantem a saia da memória de algum amor arrebatado da minha infância.

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