O nome

Palmas no portão. Pai tem um homem lá na frente, avisa meu pequeno curumim. É o vendedor de alho. Ele me oferece alho, claro, castanhas e mais alguma coisa que não entendo pelo sotaque. Os alhos que ele sempre trás são vistosos, grandes e lisos. Não sei o nome dele, nunca perguntei, agora isso me deixou o peito apertado. Imagino que é haitiano, pelo seu sotaque e pela pele negra e brilhante. Não posso ver seu grande sorriso, não posso ver suas mãos, nem seus cabelos, ele se protege com máscara, luvas, manga comprida e chapéu. Se protege e protege a quem ele atende, posso ver seu esforço em levar a vida com dignidade nessa crise sem tamanho. Posso ver nessa fresta de olhar onde eu e ele nos encontramos, essa humanidade que somos e comungamos. Aviso que não tenho trocado mas vou buscar, quando dou meio passo para trás as mãos deles se desvanecem, murcha seu corpo como se fosse inflável e estivesse vazando, seus olhos me encaram tristes, o sorriso que não vejo também some. Por um instante, nessa fração de tempo infinitamente pequena, parece que todo o drama humano ao longo dos séculos se resume, a dor das opressões, da separação de classes, das migrações forçadas, me fazem cambalear, e finalmente perceber, que ele não havia me entendido. O meu “não”, talvez o que ele mais tenha ouvido por esses dias, mesmo andando por aí envelopado de proteções contra vírus e preconceitos, se sobrepôs ao restante da fala “não tenho trocado mas vou buscar”. Volto meu passo combalido e explico que vou querer o alho sim, só ia buscar o dinheiro trocado. Rapidamente ele se reaviva, os músculos da face impulsionam um sorriso que, uma pena, não posso ver, seu corpo volta a inflar e as luvas-mãos ganham agilidade de novo para me entregar o pacote. Alívio, o mal-entendido foi desfeito e os dramas e injustiças da história ficarão esquecidos por algum tempo. Nos despedimos à distância e ele vai para os próximos muitos nãos e poucos sims da vida, leva na bolsa alho, castanhas e o seu nome, que ainda não sei.

Magritte

Magritte

Tenho um amigo que desenha, e muito bem, posso dizer categoricamente. Já vi ele desenhar de tudo. Coisas, gentes, casas, edifícios e bichos. Não tem tempo ruim, passou pelas vistas, ele desenha.

Recentemente ele adentrou numa aventura nova, desenhar o invisível. Começou meio por acaso, no terreiro que frequenta. Não teve jeito, com a prática o invisível passou a ser visível e foram revelados pelos traços da sua mão pesada.

Não é muito comum dizer “mão pesada” para um artista, um conhecedor das sutilezas da arte, mas dele digo. Certo dia ele me confessou que seus desenhos mais expressivos são guiados por um traço pesado, feitos com força e vigor incomuns, e ele não sabe direito explicar – deve ser coisa lá do outro mundo – completa sem pestanejar.

Pois é, agora que está ficando famoso entre os desencarnados, toda hora aparece um espírito lhe pedindo um desenho. Às vezes no escritório, às vezes no bar, às vezes caminhando na rua. Olha pro lado e estão lá, fazendo pose, exigindo coisas e procurando ser revelados. Ele, que é um cara bom, ligado às causas das pessoas que não têm corpo pra trabalhar e lhe pagar com alguma moeda, faz, esperançoso que um dia isso se reverta em bons fluidos ou vantagens no pós-vida.

Porém, esse dias, a demanda entrou em outro novo nível. Invadiu seu espaço mais privado e se materializou no banheiro. Era um homem grande, nu em pelo, com jeitão de preto velho que confortavelmente lhe esperava para pedir um retrato. A aparição era exigente e queria um retrato de corpo todo, sem roupas e sem censuras. Apesar de meio constrangido concordou em fazer o desenho. O modelo fez uma pose elegante e bem à vontade, meu amigo admirou-se com as partes do visitante.

Percebendo seu acanhamento, o modelo resolveu deixar o clima mais leve. Exibiu-se ainda com mais despudor e soltou – não, isso não é um cachimbo.

Quando a chuva… parte II

Há algum tempo publiquei a minha primeira participação no blog, e falava de chuva. Mas alguns desenhos foram omitidos daquela história. Na vida dos sketchers a chuva é um contratempo, mas há outros, como os bêbados, que se tornam nossos maiores fãs, as pessoas que expulsam a gente dos lugares, os doidos e aqueles que perguntam: – o que é arte? Mas voltando ao caso da chuva, ela nos dá outra possibilidade, quando o ímpeto de croquisar é muito grande e não tem como sair: desenhar de onde estamos mesmo.

A chuva era torrencial a maior parte do tempo, às vezes amainava, mas não dava trégua. Do sofá tinha algumas vistas que davam desenhos. E foi de lá, no conforto de casa, que fiz alguns desenhos que gosto muito. Gosto porque elas retratam coisas íntimas, um tema que não é muito praticado em nosso “mundinho” de urban sketchers. E também porque são recordações em forma de desenho, não importando muito se os traços e cores ficaram bons ou não.

A relação de avós e netos é uma das maravilhas da natureza humana. Não se explica só se aprecia. Os dois extremos da vida se encontrando, a inocência da infância e toda vivência da velhice, ali, frente a frente, um embate em que os dois lados vencem. Muitos poderiam representar essa cena, há incríveis ilustradores pelo mundo que seriam capazes de revelar esse sentimento com cores e formas. Mas quando a gente o presencia e capta em nossos traços, ahhh.. o sabor é outro.

Pra mim as árvores são sempre bons temas de desenho. Essa aí podia ver pela janela, uma goiabeira ainda jovem, mas que cresceu muito rápido. Eu não plantei, quem plantou foi o passarinho. Improvisei um galho atravessado para as brincadeiras das crianças, e pronto, já começaram a dizer que tinham uma casa da árvore.

Toda cozinha tem seu charme de panelas, mesa, fogão e geladeira. Ali tínhamos essas coisas essenciais para chamarmos cozinha de cozinha, e no comando a tia Tânia, exímia cozinheira de pratos do dia a dia, preparava o almoço. Sentiram o cheiro do feijão?

Assim a chuva foi migrando pra dentro do meu caderno. Foi saindo das nuvens aquela aguada e virou chuva de traços. Recordações de momentos muito preguiçosos e proveitosos no sofá velho e furado da casa da praia.

Leonardo Da Vinci e eu

Perambulava pela Vila da Glória e já havia desenhado uns barcos no trapiche. Estava com fome e procurei um lugar pra comer e fazer um desenho de barriga cheia, que é melhor. Pedi o tradicional caldo e pastel e comecei a desenhar a sorveteria logo em frente, com uma baita árvore compondo a cena.

Na mesa próxima alguns amigos conversavam animados, já meio altos. Um deles, mais curioso, ordenou ao filho num tom de voz elevado e nada sutil – Vai lá e pergunta pra ele o que ele tá fazendo? O menino veio, tímido, e perguntou o que eu fazia. – Tô desenhando. Respondi. O menino voltou e informou ao pai. Ainda insatisfeito inquiriu o menino: – Mas tá desenhando o quê? Vai lá e pergunta pra ele. O menino veio, resignado e curioso, respondi: – aquela sorveteria ali, e antes tava desenhando os barcos. Mostrei a ele. O mensageiro volta, informa ao pai que finalmente vem verificar pessoalmente o que eu estava fazendo. Olha admirado e faz elogios. Volta à mesa e conta o que viu aos outros. Um deles, bochechas vermelhas e bem “animado” começa a gritar “você é o cara! você é o cara!”, mesmo sem ter visto nem um traço na distância que estava. O pai, que se gabava com histórias másculas, teve uma ideia, veio impetuoso em minha direção, acompanhado do herdeiro. – Você desenha tudo né? Tentei explicar que não era bem assim. Não se importou e continuou. – Então, lá na frente da minha casa tem uma parede branca, você pinta uma Santa Ceia lá pra mim? É.. quer dizer. Não me deixou explicar e continuou: – nem precisa se preocupar com tinta, eu tenho tudo, pode deixar, você vai pintar a Santa Ceia lá em casa! Não consegui me desvencilhar da determinação alcoólica dele, pegou até meu telefone e tudo mais. Mas por sorte minha, nunca ligou.

Hoje, passado algum tempo, fico pensando. Pra aquele cara eu era o gênio, o Leonardo Da Vinci das quebradas que brotou na sua Vila e podia pintar uma obra-prima na fachada do seu lar sagrado, seu templo familiar. É claro que não era um cliente muito afável e nem muito santo, para a pintura de uma cena tão divina e elevada. Mas a Igreja Católica também não era, né Leo?

Deu vontade de ter feito minha ceia bíblica com o Cristo dividindo uns pastéis e tomando caldo-de-cana num balcão de lanchonete. Deu vontade…

Uma quase corrida no parque

É domingo, sol em Curitiba, um convite para ir caminhar, correr, fazer ginástica no parque. Convite aceito. Na hora de sair de casa não resisto a colocar no bolso um mini sketchbook, a nova caneta tinteiro Fountain Pen e um lápis de cor. Poderia ter algumas cenas para desenhar após a corrida.
Mas a corrida durou pouco. Logo de cara percebi que era oportunidade de fazer uns sketchpeoples. E haviam muitos tipos interessantes. Atletas de verdade, gente só conectada com seu celular, passeadores com cachorro, corredores pais e mães atrás dos seus filhos, gente idosa por recomendações médicas.

Eu vim aqui pra correr ou pra desenhar? Retomo meu propósito inicial, e quem vejo? A senhorinha que vende bolas. Tento reprimir o desejo de desenhar, não consigo. Puxa vida, nem 100 metros e outra pausa!

Desisto de correr. Caminho mais um pouquinho e logo a seguir mais uma cena, a família brincando com bolinhas de sabão. Lá vamos nós. Enquanto os deuses da ginástica me julgam com olhares de repreensão.

Tá bom, vamos lá, chega de desenho! Faço uma meia volta pelo parque à contragosto. O ímpeto atlético sucumbiu. Deixo para outro dia esse projeto, caminho despretensiosamente admirando a paisagem e curtindo as cenas que o lugar me propicia.

Para finalizar registro um vô e sua neta à beira do lago. A cena se desmancha rapidamente, mas a prendo ainda mais rápido no meu sketch. A corrida ficou para próxima vez, é melhor não trazer nem caneta nem papel.

Quando a chuva desaba – uma missa e um pecado

Acho que todo desenhista de rua já passou por isso, ter que enfrentar a chuva bem na hora e local que pretendia desenhar. E aí vai uma dessas ocasiões.

Nessas horas de pingos ou aguaceiros surgem as questões: o que desenhar? Onde se abrigar? Como resolver o desenho ou a aquarela? Incorporar ou não esse elemento tão dominante no seu desenho? Bons aquarelistas certamente dominarão os reflexos molhados, as luzes borradas e farão um belo trabalho, mas essa não é minha praia.

Saí pela Vila da Glória cheio de disposição para quebrar a abstinência de alguns dias que não desenhava, mas a chuva caiu sem dó nas minhas expectativas. Abriguei-me em uma quadra coberta e desenhei o que estava à vista – a paisagem molhada que avistava e a garotada que também esperava a chuva passar jogando conversa fora. Admito, estava de mau humor e não consegui ficar de papo com o vendedor de coco que veio olhar o que eu estava fazendo. – Você tá desenhando? – É! Respondi lacônico.

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A chuva amainou, mas persistia. Escutei cantos vindos da igreja, corri pra lá sem mostrar o desenho para o vendedor, que deve estar me achando o turista mais insuportável que passou por lá nessa temporada.

Comecei o desenho da igreja com a mão mais aquecida. Os primeiros traços já se mostraram promissores. Para não atrapalhar os verdadeiros fiéis me enfiei num canto no fundo da pequena capela. Mas a missa foi enchendo, enchendo, enchendo e pronto, estava preso, não havia jeito de sair. Então, como havia tempo, fiz um desenho mais elaborado. Lá dentro Ave Maria, lá fora, uma chuva dos infernos.

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Uma das carolas mais entusiasmadas disse que queria ver o desenho depois. Agora que não podia mesmo ir embora antes do último amém. Deu tempo até pra outro desenho. Ao final da missa a chuva tinha amainado, fiz o social com o pessoal que queria ver a minha pequena bíblia de sketches e fui embora.

O vendedor de coco já tinha partido, acho que não estava vendendo nada naquele dia. Eu, no entanto, estava no lucro, quatro desenhos para uma tarde chuvosa. Meu coração só não foi mais leve pra casa porque faltei com meu irmãozinho de intempérie, o vendedor que não queria me vender nada, só puxar assunto ou matar a curiosidade. Ainda volto lá pra me redimir desse pecado.

Museu de lá pra cá

Desenho_Museu_Alfredo_Andersen_600pxFui ao museu que leva nome de pintor importante, Alfredo Andersen, um mito da pintura paranaense. Tinha compromissos e queria fazer um croqui rápido, a princípio lá do outro lado da rua, aproveitando o formato paisagem do meu sketchbook. Já estava saindo, cumprimentei os funcionários, assinei o livro de visitas, peguei o catálogo da exposição e quase com o pé na calçada parei subitamente. Tive um daqueles flashes que a gente não explica. Havia passado no lugar onde queria desenhar! Dei 5 passos pra trás. Dali, exatamente do ponto de vista do guarda tinha que fazer meu desenho. Pedi licença, expliquei o motivo, me abanquei e comecei o trabalho.

Podia observar o movimento, o vai e vem das pessoas, perceber a tremulação que os ônibus provocavam no casarão antigo. Apreciar do outro lado da rua um prédio quase gêmeo, pintado de verde desbotado. Compondo a cena também havia a floreira, as árvores, e o telhado. Tudo lindamente emoldurado pela entrada do museu.

Comentei com um dos guardas que as pessoas passavam rápido e precisava desenhar de memória, a porta era estreita. Ele concordou, mas disse que mesmo assim ele reconhecia alguns comerciantes vizinhos e passantes de todos os dias. Fiquei admirando aquele ponto de vista, reparando nas pessoas que olhavam de soslaio, espreitando curiosas para dentro, mas não entravam para ver os solitários quadros em exposição.

Para os funcionários e para mim, a exposição era outra, não as que eles guardavam, mas a que passava na rua, livre, emoldurada pela porta. Pinturas fugazes, gravuras velozes, esculturas que falavam. Os acontecimentos assim recortados pela porta tinham uma tremenda atração. O silêncio interior contrastava com o burburinho do mundo que entrava em porções estreitas. Um barulho de caminhão, um canto de pássaro, um mínimo trecho de conversa entre duas moças.

Concluí meu desenho e deixei os acabamentos para outra hora. Me despedi e entrei na moldura-porta que acabara de desenhar. Passei pro outro lado do mundo, agora eu seria mais uma daquelas figuras que os funcionários viam, cheio de urgências e conversas picotadas, me tornaria uma cor, uma forma, uma composição, um movimento…

O desenho derradeiro

Desenho Sketch Oculto

Uma Araucária no bairro Bom Retiro em Curitiba

O desenho foi feito na última folha do bloco, a última bolacha do pacote, como se diz popularmente. Juntando até os dias de hoje talvez some 15 a 20 anos que o bloco andou perambulando pelo mundo. Veio do Japão pelas mãos de uma amiga e ficou guardado. Ganhei o bloco dela com o ensejo de fazer desenhos. Assim ela esperava que fosse, não foi. Alguns anos ainda ficou esquecido, em meio à bagunça. Um pouco por que eu estava afastado do mundo dos desenhistas, e entretido no mundo dos designers, em parte por medo. É medo, medo de papel em branco. E ainda um papel fino como aquele… não dava, me intimidava.

Aí veio o Croquis Urbanos Curitiba para sacudir a poeira do meu eu-desenhista. Nos primeiros encontros nem me lembrei do dito bloco. Mas em um dos domingos, na correria para juntar o que levar, me deparei com o bloco de folhas bacanas e levei. Até então não tinha gostado de nenhum dos desenhos que havia feito nos encontros. Mas esse dia foi especial, criei o desenho a partir da figura de um passante e o espírito urban sketcher encarnou em mim, acho que definitivamente.

Pintou aquela coisa de se abrir para o que está à sua frente naquele momento, sem trazer imagens pré-concebidas. Se arriscar porque é um croqui, é um estudo, é um registro, é um lazer, prazer… essas percepções todas caíram de uma só vez na minha cabeça. E registrei onde esse momento? No bloco antes esquecido. Nessa matéria feita de celulose e trabalho.

Flertei, e ainda flerto, com diferentes suportes, mas o bloco japonês foi sendo usado. Alguns desenhos felizes e muitos que não foram aquele sucesso. Hoje, quando saía bem cedo de casa, sabia que teria algumas horas de espera. Seriam momentos demorados, sem nada para fazer, e tinha um atrasado desenho de Sketch Oculto que poderia colocar em dia. Puxei o bloco, mas vi que havia somente a última folha, pensei sem tempo: – vai nessa mermo!

Chegou a hora da espera e com o bloco na mão fiquei procurando o que desenhar, não podia sair do prédio, que não tinha uma cenário que me encantasse. Mas como se encomendado por um roteirista de róliúde, ao final de um corredor havia um janelão, daqueles que vão até o chão, e quatro confortáveis poltronas, exatamente de frente para uma araucária. Ao fundo a cidade emoldurada. Sorri satisfeito, era o destino. Me sentei e fiz o derradeiro desenho na última folha do bloco japonês.

Curitiba, 25 de setembro de 2015

Foto de Eliana Del Bianco Alves, a atual dona do desenho.

Praça do Homem Nu

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A Praça 19 de Dezembro em Curitiba não é um lugar “fofo” da cidade. Conhecida como Praça do Homem Nu, que me soa bastante machista, porém justificável, já que a mulher foi pra lá depois, a praça é um lugar sujo e depredado. Não encontramos por lá os mesmos suspiros de encanto que vemos em parques, museus e outros lugares mais aprazíveis de Curitiba. Apesar disso, a sua atração estética não passa desapercebida. Seja pelo obelisco que comemorou os 100 anos da emancipação política do Paraná, os dois gigantes de pedra – o homem criado por Erbo Stenzel e a mulher por Humberto Cozzo, pelo alto relevo também de Stenzel, pela agradável arborização ou pelos lindos desenhos do painel de azulejos de Poty Lazzarotto.

Mas admito que é difícil ter prazer estético ao sabor de fortes odores urinários e à presença de bêbados e “malacos”. Mas como “voyeuristas” da cidade os “urban sketchers” apreciam essa praça. E não apenas nós. Movimentos sociais já a elegeram inúmeras vezes como ponto de encontro e travestiram as esculturas com muitos propósitos diferentes. Menos barulhentos, e não menos importantes, são os casais românticos e pessoas simples que tiram fotos e depois caminham para um passeio no Passeio. Público que não se sente incluído nos espaços burgueses da cidade, mas também dão vida, significado e verdade a essa praça de Curitiba.

A carona

Vocês podem me dar uma carona atá a Praça Tiradentes? O sinal estava fechado e a senhora carregava duas bolsas grandes. Interrompemos nossa conversa e tratamos de arrumar lugar para ela no banco da frente, pois com todas aquelas tralhas não conseguiria ir no banco traseiro do carro. Entrou agradecendo. Na rua que ela estava passava ônibus regularmente e não entendemos porque pediu carona, mas por algum motivo misterioso a gente sabia que devia ajudá-la. Choramingou escondendo o rosto – eu nunca pedi carona, ai que vergonha. Tratei de consolá-la dizendo que era normal, coisas da vida. Meu amigo que havia cedido lugar indo pro banco de trás permanecia mudo. Conhecendo seu jeito emotivo podia imaginar o que estava sentindo. Tentei puxar assunto, perguntar alguma coisa a ela para aliviar seu constrangimento, mas quando desviei o olhar do trânsito para ver sua reação percebi que ainda chorava. – A gente faz tudo pelos filhos e quando mais precisa não pode contar com eles. A mudez foi a nossa resposta. Eu queria ter mais o que dizer, mas palavras são arredias nessas horas. O silêncio reinou, somente interrompido por confissões curtas. O marido iria ter alta da UTI, mas teve uma piora à noite e teve que ficar. O filho estava escolhendo sua nova cozinha e não pode ir buscá-la. Ela largava tudo para ajudar a ele ou sua nora, mas ele não retribuía. O caminho tão curto ficou longo e estendido como um filme lento cheio de pausas. Chegamos próximo à Praça e parei para ela descer. – Muito obrigado, Deus abençoe. Retribuímos os votos. Ela se foi, mas o silêncio plantado naqueles momentos continuou crescendo, subterraneamente, por baixo das nossas palavras e falações, e continua agora e continuará, por quanto tempo lembrarmos daquela senhora.