Biblioteca da Infância

Revi nessa semana a biblioteca da minha infância. Na minha escola lia os livros indicados pela professora de português, e não me lembro se havia biblioteca. Mas, no bairro, numa casa antiga e caindo aos pedaços havia a Biblioteca de jacarepaguá. Lá havia outros livros mais “interessantes” e que abriam novos horizontes para minha vida. Livros maravilhosamente impróprios para minha idade, e também os grande clássicos que a escola achava inadequados pelo seu volume. Não achem que eu muita coisa por lá, acho que só folheava e respirava aquele mistério que as bibliotecas têm. Na verdade, teve uma época que andei emprestando e lendo alguns livros impróprios, que logo sucumbiram a censura familiar. Mas me inspiraram para outros que acabei conhecendo depois.

Então, passei lá na Biblioteca e a placa, por incrível que pareça, é a mesma, o estado da casa, ainda decadente, as estantes apertadas para o acervo, continuam se inclinando perigosamente, e cheiro de mofo em papel presente como naquele tempo. Em meio a turbulência que se tornou meu bairro da infância hoje, a biblioteca é um templo de silêncio e saudade. Fiquei lá, “cheirando” os livros muito gastos e usados. Encontrei uma edição de Vida Secas com ilustrações de Ademir Martins, que é mesma que li quando criança. Sempre amei aquele livro e aquelas ilustrações, quem diria que um dia eu saberia o porquê, já que aindo amo Graciliano Ramos e os traços elegantes do Ademir Martins, a quem tive uma vez meu desenhos comparados (que honra). Também folheei um livro da Cecília Meireles, de onde estraio a poesia que vai nesse texto.

Realização da vida

Não me peças que cante,
Pois ando longe,
Pois ando agora
Muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,
– nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas
e que era a vida.

Deixei um bilhete no livro de assinaturas, agradecendo àquele lugar e alertando aos que ali habitam sobre os frutos que podem gerar, onde descobri minhas primeiras letras independentes.

2 comments Novembro 15, 2008

Palha de estrelas

A infância de seu Alberto em Coimbra foi extremamente pobre e profundamente rica. Ele conta que não tinham sapatos, só tamancos de madeira e couro e em certa época do ano viviam como pastores de ovelhas. Nessas andanças pelas montanhas ele pode viver uma das experiência que recorda com prazer.

No inverno, não havendo pasto para as ovelhas, eles tinham que levar a palha que haviam acumulado para os criadores. Iam de carro-de-boi rangendo e subindo as ladeiras da sua terra natal. Enquanto subiam sofridamente pela estrada ele se deitava sobre a palha e olhava para as estrelas, embalado pelo ranger sacudido do carro-de-boi.

Essa história me lembra outra, da juventude de Pablo Neruda, “O Amor junto ao trigo”:

“(…) Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, o rosto e os braços cobertos de palha. A noite era clara, fria e penetrante. Não havia lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva e, sobre o sono cego de todos os outros, somente para mim cintilavam no regaço do céu. Em seguida dormi. Despertei bruscamente porque alguma coisa se aproximava de mim, um corpo desconhecido se movia debaixo da palha e se acercava do meu. Tive medo. Esse algo se chegava lentamente. Sentia se partirem os talos da palha, afastados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, esperando. Devia talvez levantar-me e gritar. Fiquei imóvel. Ouvi uma respiração muito perto de minha cabeça.

Súbito uma mão avançou sobre mim, uma mão grande, cajejada, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto com doçura. Depois uma boca ávida se colou à minha e senti, ao longo de todo o meu corpo, até os pés, um corpo de mulher que se agarrava a mim.

Pouco a pouco o meu temor se mudou em prazer intenso. Minha mão percorreu sua cabeleira com tranças, um fronte lisa, os olhos de pálpebras fechadas, suavas como amapolas. Minha mão continuou buscando e toquei dois seios grandes e firmes, nádegas amplas e redondas, pernas que me entrelaçavam, e mergulhei os dedos em um púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca desconhecida.

Como é difícil fazer amor sem causar ruído em um monte de palha, compartilhado por mais sete ou oito homens, homens adormecidos que por nada do mundo devem despertados. Mas o certo é que tudo se pode fazer, ainda que custo cuidados infinitos (…)”

Quem quiser ler o resto da história procure Confesso que Vivi de Pablo Neruda.

Add comment Novembro 4, 2008

Vinho das cerejas

Seu Alberto me conta da sua operação de ponte de safena. Ele deve ter um complexo rodoviário no peito, de tantas pontes. Depois de uma das operações ele ficou profundamente anestesiado, dormindo. Enquanto dormia e seu coração se recuperava, uma recordação de infância lhe perseguia…

Em Portugal sua família era muito pobre, mas na terra que moravam de favores a safra de cerejas chegava antes que a dos vizinhos. Toda a família se reunia para a colheita e num surrado caminhão iam para a cidade vender a bons preços. Era um dia de festa e especialmente lucrativo, por isso ao voltar para casa, seu pai se dava ao direito de tomar uma caneca de vinho na estalagem que havia no caminho.

No seu pós-operatório esse sonho persistia em sua mente, a lembrança do seu pai tomando vinho na estalagem, no dia da venda das cerejas, e a grande alegria que isso lhe proporcionava.

Quando Alberto acordou descobriu que não havia dormido só um dia, mas cinco. Havia cinco dias que estava sonhando com o vinho das cerejas…

Add comment Novembro 4, 2008

Motor

Seu Alberto, homem de portugal que conheci esses dias, chama seu coração safenado de motor. É um tipo melancólico e saudosista, característica marcante dos nossos patrícios. Não é grosseiro como alguns portugueses, pelo contrário, é extremamente doce e cheio de sorrisos. Seu motor anda falhando, e conversando com ele fiquei imaginando por dentro da sua camisa de listras as válvulas e pistões funciando irregulares. Me lembrei da música, “meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito”… e a música segue a melancolia saudosa desse Alberto português, “teu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, o coração dos aflitos, pipoca dentro do peito”, pipoca o motor de fusca dentro do peito do Alberto.

Add comment Novembro 4, 2008

Cruz e Souza

Filho de escravos na branca sociedade catarinense do século XIX, profundamente angustiado, e, para complicar, poeta. Aí vão alguns versos:

(…) Esquecer é não ter lágrimas puras,
Nem asas para beijos
Que voem procurando sepulturas
E queixas e desejos!

Esquecimento! eclipse de horas mortas,
Relógio mudo, incerto,
Casa vazia… de cerradas portas,
Grande vácuo, deserto.

Add comment Outubro 28, 2008

O primeiro infarto a gente nunca esquece

Fiz quarenta anos e meio esses dias. Chego a metade da minha vida e ao primeiro infarto. Dores cardíacas marcaram essa passagem, o que me soa maiakovskiano e passional, como muito da minha vida. Chegar a metade de uma existência humana está doendo com urgência e calma. A urgência de saber que não haverá mais muito tempo me deixa nervoso, e a calma surge porque me sinto mais leve, despreocupado de acertar sempre. E dessa mistura calma e urgente que vou me alimentando para as próximas décadas, espero ter oportunidade de vivê-las intensamente, olhando flores em dia de chuva…

Add comment Outubro 23, 2008

meio a zero é vitória, já que o contrário…

Sim, foi por pouco. Mais uma vez elegemos a vereadora Professora Josete para a Câmara de Curitiba, mas dessa vez os números nos deixaram de cabelo (os que têm) em pé. Me inspirei no Minero – quando me convidou para participar mais uma vez dessa empreitada, criando os materiais gráficos – que usou a expressão “em time que está ganhando não se mexe” para intitular esse jogo, digo, esse texto.

Passamos raspando nos números mas não na paixão. Sim, claro que é bom vencer de goleada e sair cantando vitória. Mas vencer é vencer mesmo no susto, e essa vitória começou quando colocamos em nossos gestos e ações a paixão por fazer uma bela campanha. Podia ser corrido, mas tinha que ser bonito. Podia ter pouco espaço, mas tinha que ter conteúdo. Faltou dinheiro, usa a criatividade. Isso porque acreditamos que a continuação desse mandato é necessário, pois é sério, ético, comprometido e sempre combativo. E é uma das poucas vozes que ousam se levantar quando o senso comum é se calar e ir levando, e não só na direita, mesmo dentro do PT curitibano.

Por isso esse gol suado, feito aos 49 do segundo tempo quando o juiz já tinha apitado, vale pódio! Vale ouro! Mas é também o momento para refletir sobre esse processo eleitoral. Como fazer oposição? Como fazer campanha consciente? Como conseguir chegar até as pessoas? Como despertá-las? Como transformar apoio e simpatia em voto?

Uma grande caminhada começa no primeiro passo, esse foi dado, meio a zero com toda a honra! A taça do mundo é nossa e me perdoem os que não chegaram lá. “Óia nós aí traveis!” Parabéns a todos que participaram!

Add comment Outubro 6, 2008

Video game chinês

Esses dias os noticiários andam falando muito dos pequenos estudantes brasileiros, que freqüentam a escola mas não aprendem. Acho que isso tem o pavoroso nome de “analfabetismo funcional”.

Quem já teve algum contato com a população de regiões de baixa renda sabe como isso é comum, e que nem precisava o IBGE para constatar isso. Quanto dei aula no Tatuquara, periferia de Curitiba, os jovens entre 15 e 18 anos sabiam ler, mas não compreendiam, sabiam escrever mas o texto era truncadíssimo e ortografia era uma coisa desconhecida. Também em João Pessoa estive com turmas, lá numa faixa etária de 7 a 10 anos, e a situação era ainda mais complicada. Eu via nos olhos deles como era pavoroso quando um professor pedia que eles lessem ou escrevessem algo, mas todos estavam na “escola”.

Nessas situações sempre procurei subterfúgios para vencer essa barreira e quem sabe um dia despertá-los para esse prazer que é muito mais que necessidade básica. E já que a leitura e a escrita são projeções do pensar e do falar, eu inventava coisas com criação verbal (oralidade), desenhos, debates, organização de idéias, e a boa e velha interpretação de texto, que podia ser interpretação de imagens também. Parece que funcionava, sempre depois de um bom bate-papo, troca de idéias ou desenhos, as letrinhas parecem que fluíam mais facilmente.

Mas não estou aqui para defender nunhuma nova didática emergencial de salvação da pátria, só quero mesmo é compartilhar um sentimento que me veio a cabeça (sentimento vem a cabeça?) quando escutei hoje essas notícias. Fiquei relembrando como as crianças (mesmo as mais machucadas pela vida) são capazes de aprender, aprender de tudo (bom ou mal), como são fisgadas pela curiosidade e até pelos desafios, como são flexíveis em seus corpos e em suas mentes, como podem (ao contrário dos adultos) aprender duas ou três línguas brincando, abarcar geografias, matemáticas, histórias, portugueses, biologias, etc em suas mentes. Claro que isso não é uma percepção nova, mas é a percepção contrária que vejo nas atitudes dos professores, que acreditam que aquelas “pequenas pessoas” sofrem para aprender.

Eu queria que os professores vissem a infância dos seus alunos como uma oportunidade única, onde as mentes estão tinindo, prontas para descobrir o mundo. Que vissem com olhos otimistas seus pupilos e não com olhos desiludidos, que os contaminassem com a fagulha que incendeia a mente, a fagulha da curiosidade, do saber mais e se divertir com isso.

Claro, estou delirando, não posso esperar muito dessa geração de professores, quem sabe da próxima. Mas enquanto isso vou tentando fazer minha pontinha de participação. Àqueles que não acreditam, que acham que os “analfabetos” não lêem e não tem jeito, eu desafio: dê para eles um video game em chinês e veja o que eles serão capazes.

Add comment Setembro 25, 2008

Amigo é casa II

Amigo é casa II trata-se de uma amizade antiga e sempre renovada com o Glaucio. Genial compositor, coração gigante como balão de ar, sempre a um milímetro de estourar em sorriso ou lágrima. Mais um personagem rondoniense e grandemente brasileiro, apesar dele ter nascido mesmo é na Bolívia. Viva a América Latina! A foto, acompanhado da sua filha Una, foi tirada no Rio Madeira (vejam a cor desse rio), o peixe estava por chegar. Do Glaucio e sua filhota ainda poderia dizer algumas centenas de palavras, mas acho que será melhor dito por ele em sua verve poética: “a melhor seiva que pude arrancar desse pé de letra”. Salve Glaucio!

* Ah, ia esquecendo, “Amigo é casa” é uma expressão roubada do show da Zélia Duncan com a (ressuscitada) SImone. A letra dessa música vocês podem conferir em um clique. Ah, em tempo, a composição é de Hermínio Bello de Carvalho e do genial Capiba.

3 comments Agosto 2, 2008

Amigo é casa I

Novamente em Rondônia estive em Cacoal, e fui recebido por amigos de lá. Da família Okabayashi, destaco Katuo que vai na foto, que sempre tem uma boa surpresa nas mãos. Destes momentos de muito trabalho ficam os intervalos cheios de graça e exotismo. Exotismo parece uma palavra demasiada grande para a situação, mas não é. Lá quase todas noites terminam com bons peixes e bons vinhos, vê se faço isso todo dia? Ao cair da tarde, quando o sol nos dá uma trégua é hora de tomar um belo sorvete de tapioca, que lá tem o melhor do mundo, e não é o da pracinha, tem uma outra loja na avenida que huummmm…. Mas se assunto é peixe, vide pequeno dourado, o chef é Katuo, que faz o melhor peixe da região. Cacoal existe, mas só existe na alma-casa dos amigos.

Add comment Agosto 2, 2008

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