Pego o 650 em Madureira indo para o Méier. Micro-ônibus fazendo percurso de ônibus inteiro, vai sacolejando pelas ruas dos bairros periféricos do subúrbio carioca. Buracos, engarrafamentos, obras inacabadas e outros obstáculos vão sendo vencidos a custo de muitos safanões e velocidade acima do limite.
Lotado, a todo tempo parava para recolher mais passageiros. Contrariando as leis da física duas ou mais pessoas ocupavam o mesmo lugar no espaço, aperto geral. O motorista vai exercendo suas diversas funções, dar troco, resolver quem é passe livre ou não, idosos e não-idosos, xingar o trânsito e claro, dirigir.
Vamos todos no mesmo barco dividindo nossos incômodos, hálitos, suores e um sentimento de massa única que essa experiência propicia. Quando o ônibus para em mais um ponto adentra a nossa lata de sardinha coletiva um marinheiro, impecavelmente branco! Seu uniforme alvo está cuidadosamente passado a ferro (será que foi também engomado, ainda se faz isso?) e seu sapato é preto reluzente. Ele se enfia por entre a plebe como um anjo branquíssimo, o cara devia ter algo de divino pois chegou ao fundo do ônibus ainda impecável, sei lá, milagre talvez. A cena faz uma música ecoar na minha cabeça, tãrãrãrãm.. narãm.. narãm.. e o Tom Cruise de uniforme branco em Top Gun.. sei lá se misturei os filmes, mas havia algo de surreal naquilo, não é possível foi tudo armado e tinha até trilha sonora… tãrãrãrãm.. narãm.. narãm.. e o 650 seguia indiferente seu caminho, mas para nós, espremidos naquela cena, tinha algo de digno, algo de elevado, algo de impecável que entrou em nossa vida atribulada e barulhenta… e tenho certeza que todos ficamos mais felizes.




O ônibus não fez curva. Pura sorte!
Fez muitas.. será que falta dizer isso no texto? O caminho era por aquelas ruas intrincadas da Abolição, é esse o nome?, no caminho que a gente ia na casa do Tio João e D. Noêmia