Para não dizer que eu não falei de saputi

Saputi é uma fruta. O dicionário me corrige dizendo que é sapoti com O, a grafia correta. Mas eu vou de saputi mesmo, essa fruta doce de pele fina e marrom. Saputi foi a fruta da minha infância, claro houve mangas de vários tipos, carlotinha, espada e muitas outras que dão muitas histórias, mas saputi é a número 1.

Também houve carambolas e tamarindos. Mas essas frutas que estou falando não eram somente coisas de comer que vinham do supermercado ou da feira (as que vinham das compras eram banana e laranja, não muito mais que isso), essas eram as frutas que pegávamos do pé, que sabíamos onde elas moravam, que podíamos apontar para elas e não precisávamos pagar e sim escalar troncos, pular muros, invadir propriedades a sua procura, e na época certa desfrutá-las, com perdão do trocadilho.

Nunca havia me atentado para isso. Todo mundo fala que é realmente muito diferente o sabor da fruta no pé, mas é mais que isso, ao sabor da fruta se acrescenta a árvore, os desafios de pegar, os medos, as delícias, as companhias e tudo mais que as tornam as FRUTAS maiúsculas de nossa vida. Ficar relembrando essas delícias dá uma safra de boas histórias. Mas agora o que quero mesmo é falar de saputi.

Tudo acontecia na casa da Dona Zulmira. Ela não era minha parente, era uma vizinha dos meus primos. Eles moravam em Macaé, que na minha infância era apenas uma cidade pequenina no litoral do Rio de Janeiro, não havia ainda essas coisas todas relacionadas ao petróleo, pré-sal e ao futuro do país, que hoje a cidade ostenta. A casa da Dona Zulmira era de fundos e tinha muitos gatos, a gente entrava por um corredor comprido e lá trás, num quintal imprensado entre outras casas, havia um imenso pé de saputi. A escala de grandeza fica por conta da memória fraca.

Saputi é uma fruta de criança, muito doce e com uma pele fina se entregava fácil a nossa gula infantil. Ficávamos ali, ao redor da árvore, comendo seus frutos e nos regalando nos galhos ensombreados. Não lembro muito dos detalhes por lá, ficou um devaneio de lembrança, que escorrega como as sementes lisas e pretinhas de saputi. Taí uma coisa bonita, a semente de saputi é de um negro tão negro que passaria por pedra preciosa, e para mim era.

O saputizeiro foi um amigo querido. Dona Zulmira e seus gatos eram personagens interessantes, mas diante daquela árvore que nos oferecia sem limites doces suaves e galhos acessíveis, não tinha como, ia pra lá só para estar habitando aquela casa-árvore, cheia de vida, cheia de pássaros e delícias. Eu, menino de apartamento da cidade grande, me sentia finalmente inteiro, como se estivesse dentro de um desenho de livro: o menino, a árvore e a fruta. E talvez por esses momentos na árvore que minha vida se tornou mais doce, porque há um saputi de infância eternamente brotando dentro de mim.

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