Predadores da alma

Setembro 4, 2009

Alcione Araújo

Por onde passo, procuro os olhos de uma pessoa, de outra e mais outra. Aqui e ali, em um ou outro olhar, encontro algum brilho de vida, de expectativa e de esperança. Um olhar que brilha é mais do que um consolo: é uma confirmação. Os que amam tornam-se generosos. O amor expulsa a mesquinharia, o egoísmo. Neles, sobra o que, em geral, nos falta. E não é apenas o seu olhar que brilha. O ser que ama irradia luz, e queremos que esta luz nos ilumine.

Mas as almas estão feridas. A grande maioria dos olhos está baça, opaca, sem luz. Como se um ar parado acumulasse nuvens na frente do sol, e as pessoas, perdidas dentro da neblina, não conseguissem enxergar nada à frente. Caminham inseguras e cautelosas, sem saber direito onde estão, nem que riscos as ameaçam. E lá vão elas, cada qual cuidando de si, protegendo seu pedacinho visível de percurso, isso enquanto ainda não se perdeu das mãos amigas, e depende de segurar a de um estranho.

Estamos começando a perceber o que é a extensão e profundidade de viver numa sociedade de massa. A quantidade altera profundamente a qualidade. O futuro já foi incerto, hoje é imponderável. Já não somos, nem vislumbramos o que seremos. O sentimento é de que não há mais um mesmo barco, embora possa haver um mesmo mar. Acentua-se o sentimento de estar perdido, de não se estar entendendo tudo o que acontece. Resta a sensação de extrema solidão num mundo super-habitado. Se antes se perguntava de onde viemos e para onde iríamos, hoje se pergunta o que fazemos aqui e o que fizemos disso aqui. Num darwinismo terminal, formos largando, pelos imponderáveis caminhos da vida, as nossas referências pessoais, familiares, políticas, filosóficas, religiosas. E não tínhamos pelo que substituí-las. Valores em crise, fé em declínio, e eis-nos nos braços da mistificação a varejo. Seguimos nus, caminhando contra o vento gelado, coração apertado pelo medo.

Mas não era disso que queria falar. Esse tema me tomou. Queria falar do amor, é claro. Tenho uma amiga que, depois de três filhos e dois maridos, está apaixonada. Outro dia, fomos jantar. Embora discreta, era como se tivesse um farol acesso na mesa. Todos os barcos que passavam ameaçavam atracar. Mas era inevitável. O olhar dela espargia luz para todos os lados. A sensualidade exalava do corpo. E não era só isso. Tinha o sorriso: irresistível.

Mas eu queria saber muita coisa. Por exemplo: como a paixão pode atacar alguém que já está roçando as cordas? O acúmulo de erros das experiências anteriores não desanima? Tantos aos de espera pelo amor não congela o desejo? Ela foi respondendo â medida que a minha curiosidade permitia. Mas começou do começo.

A primeira medida foi limpar o coração. Havia lixo acumulado desde a adolescência. Lixo de amor não sai pela lixeira, faz parte de mim, sou eu. Tem que ser limpo, cada caquinho. É como satélite, que vira lixo espacial. E temos de mocinha, de moça, de mulher, de esposa, etc. Meu Deus, como ajuntei lixo, como sou fita de lixo. Tirei tudo, caco a caco, limpei tudo, e repus no lugar. Ah, que alívio! Lixo limpo é inofensivo.

Depois joguei fora o passado. O passado depositado nos objetos, o passado que se acumulara na minha memória — já disse várias vezes, não seu que vivo no passado, é o passado que está em mim. Fora com ele. Depois, botei fora o que não precisava mais. O que fazia na minha casa o barbeador do Nestor, se casa outra vez? Lixo.

Não conseguíamos pedir o prato porque a conversa me interessava mais. Aos poucos, foi ficando à vontade. Perguntou se senti o cheiro de naftalina do vestido, que o sapato da irmã era um número menor e teve que ressuscitar o band-aid do Aldir. Não saía de casa, para que gastaria dinheiro com essas coisa?

E foi então que ele caiu de pára-quedas. Uma amiga resolveu chama-la para tomar um vinho de aniversário num restaurante. A certa altura, a amiga foi ao banheiro. Um gato e cabelos grisalhos que estava no balcão aproximou-se e, apresentando-se com Ângelo, perguntou se não queria a companhia de um homem. Foi então que lhe ocorreu uma resposta que ela até hoje não sabe se ouviu de alguém, se leu em algum lugar, ou se foi criação dela: “Olha, Ângelo, na verdade, eu não estou procurando um homem. Acho que não passam de predadores de alma e caçadores de corpos. Mas vocês nascem assim. Estou aqui para ver se ele me acha. O que tenho a fazer é apenas receber aquele que me escolher. Senta, Ângelo, e fica à vontade.”

Alcione Araújo, do livro Urgente é a vida – 2004

Entry Filed under: De outros. .

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