Archive for Novembro 15th, 2008

Combinação perfeita

feijao-com-arroz-01_menor

Todos os brasileiros conhecem bem a foto acima, arroz e feijão no mesmo prato. Talvez no sul ou no norte o feijão seja mulatinho, ou carioquinha, como queiram. Mas o feijão com o arroz daqui do Rio de Janeiro, especialmente o da dona. Suzana é assim, branco e preto. Quando ela me serviu esses dias com o prato dividido nas duas cores me veio a idéia da foto. Ajustei os detalhes, joguei uma carne seca em cima do arroz e um pouco de arroz em cima do feijão e tava pronto. O prato perfeito, equilibrado, harmônico e fresquinho. Neste dias aqui no Rio comi ying e yang no almoço e no jantar, e sabe o quê? Estou me sentindo ótimo.

1 comment Novembro 15, 2008

Toma coca-cola pra ficar careta

Na minha juventude quando saía para alguma noitada, e ficava meio acima do ponto, as vezes precisava tomar uma coca-cola. Naquela hora o pensamento era de ficar careta, de segurar a onda, de conter a euforia. Ficar careta significava mais que glicose no sangue para abaixar o teor alcoólico, pois ainda hoje tomo a dita com esse objetivo mesmo quando não “tomo umas”. Coca-cola significa pra mim o conformismo, a rendição diante do domínio do senso comum.

Lógico, necessária como remédio, a coca-cola me centrava e mantinha meu equilíbrio. Fazia eu voltar a terra, a caretice sem delírios, sonhos, e muito menos utopias. Também servia para o oposto, triste ou sorumbático, bebericava o líquido negro e gasoso, e recebia a alegria em lata.

Não odeio coca-cola, pelo contrário, amo-a, principalmente acompanhando a pizza que minha mãe faz, perfeita sintonia. Mas fico repensando esse pensamento da juventude “pra ficar careta”. Os caretas são os que estão conformados, ou são os que preservam as tradições? Ficar careta na juventude é um contrasenso ou uma necessidade?

Acho que não serei capaz de responder a essas perguntas, apenas provocar coceira nas idéias. Pensar nesse conformismo vendido em latas, potes ou sacolas e a coca-cola como ícone. Fiquei bem careta em minha juventude, talvez devido ao consumo desse precioso líquido. De tão careta que fiquei que acabei vivendo uma segunda idade descolada e sem regras, numa adolescência tardia.

Mas, vou tomando coca-cola quando a coisa aperta, e se possível com a receita de pizza da minha mãe.

2 comments Novembro 15, 2008

Biblioteca da Infância

Revi nessa semana a biblioteca da minha infância. Na minha escola lia os livros indicados pela professora de português, e não me lembro se havia biblioteca. Mas, no bairro, numa casa antiga e caindo aos pedaços havia a Biblioteca de jacarepaguá. Lá havia outros livros mais “interessantes” e que abriam novos horizontes para minha vida. Livros maravilhosamente impróprios para minha idade, e também os grande clássicos que a escola achava inadequados pelo seu volume. Não achem que eu muita coisa por lá, acho que só folheava e respirava aquele mistério que as bibliotecas têm. Na verdade, teve uma época que andei emprestando e lendo alguns livros impróprios, que logo sucumbiram a censura familiar. Mas me inspiraram para outros que acabei conhecendo depois.

Então, passei lá na Biblioteca e a placa, por incrível que pareça, é a mesma, o estado da casa, ainda decadente, as estantes apertadas para o acervo, continuam se inclinando perigosamente, e cheiro de mofo em papel presente como naquele tempo. Em meio a turbulência que se tornou meu bairro da infância hoje, a biblioteca é um templo de silêncio e saudade. Fiquei lá, “cheirando” os livros muito gastos e usados. Encontrei uma edição de Vida Secas com ilustrações de Ademir Martins, que é mesma que li quando criança. Sempre amei aquele livro e aquelas ilustrações, quem diria que um dia eu saberia o porquê, já que aindo amo Graciliano Ramos e os traços elegantes do Ademir Martins, a quem tive uma vez meu desenhos comparados (que honra). Também folheei um livro da Cecília Meireles, de onde estraio a poesia que vai nesse texto.

Realização da vida

Não me peças que cante,
Pois ando longe,
Pois ando agora
Muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,
– nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas
e que era a vida.

Deixei um bilhete no livro de assinaturas, agradecendo àquele lugar e alertando aos que ali habitam sobre os frutos que podem gerar, onde descobri minhas primeiras letras independentes.

2 comments Novembro 15, 2008


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