Archive for Novembro 4th, 2008

Palha de estrelas

A infância de seu Alberto em Coimbra foi extremamente pobre e profundamente rica. Ele conta que não tinham sapatos, só tamancos de madeira e couro e em certa época do ano viviam como pastores de ovelhas. Nessas andanças pelas montanhas ele pode viver uma das experiência que recorda com prazer.

No inverno, não havendo pasto para as ovelhas, eles tinham que levar a palha que haviam acumulado para os criadores. Iam de carro-de-boi rangendo e subindo as ladeiras da sua terra natal. Enquanto subiam sofridamente pela estrada ele se deitava sobre a palha e olhava para as estrelas, embalado pelo ranger sacudido do carro-de-boi.

Essa história me lembra outra, da juventude de Pablo Neruda, “O Amor junto ao trigo”:

“(…) Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, o rosto e os braços cobertos de palha. A noite era clara, fria e penetrante. Não havia lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva e, sobre o sono cego de todos os outros, somente para mim cintilavam no regaço do céu. Em seguida dormi. Despertei bruscamente porque alguma coisa se aproximava de mim, um corpo desconhecido se movia debaixo da palha e se acercava do meu. Tive medo. Esse algo se chegava lentamente. Sentia se partirem os talos da palha, afastados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, esperando. Devia talvez levantar-me e gritar. Fiquei imóvel. Ouvi uma respiração muito perto de minha cabeça.

Súbito uma mão avançou sobre mim, uma mão grande, cajejada, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto com doçura. Depois uma boca ávida se colou à minha e senti, ao longo de todo o meu corpo, até os pés, um corpo de mulher que se agarrava a mim.

Pouco a pouco o meu temor se mudou em prazer intenso. Minha mão percorreu sua cabeleira com tranças, um fronte lisa, os olhos de pálpebras fechadas, suavas como amapolas. Minha mão continuou buscando e toquei dois seios grandes e firmes, nádegas amplas e redondas, pernas que me entrelaçavam, e mergulhei os dedos em um púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca desconhecida.

Como é difícil fazer amor sem causar ruído em um monte de palha, compartilhado por mais sete ou oito homens, homens adormecidos que por nada do mundo devem despertados. Mas o certo é que tudo se pode fazer, ainda que custo cuidados infinitos (…)”

Quem quiser ler o resto da história procure Confesso que Vivi de Pablo Neruda.

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Vinho das cerejas

Seu Alberto me conta da sua operação de ponte de safena. Ele deve ter um complexo rodoviário no peito, de tantas pontes. Depois de uma das operações ele ficou profundamente anestesiado, dormindo. Enquanto dormia e seu coração se recuperava, uma recordação de infância lhe perseguia…

Em Portugal sua família era muito pobre, mas na terra que moravam de favores a safra de cerejas chegava antes que a dos vizinhos. Toda a família se reunia para a colheita e num surrado caminhão iam para a cidade vender a bons preços. Era um dia de festa e especialmente lucrativo, por isso ao voltar para casa, seu pai se dava ao direito de tomar uma caneca de vinho na estalagem que havia no caminho.

No seu pós-operatório esse sonho persistia em sua mente, a lembrança do seu pai tomando vinho na estalagem, no dia da venda das cerejas, e a grande alegria que isso lhe proporcionava.

Quando Alberto acordou descobriu que não havia dormido só um dia, mas cinco. Havia cinco dias que estava sonhando com o vinho das cerejas…

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Motor

Seu Alberto, homem de portugal que conheci esses dias, chama seu coração safenado de motor. É um tipo melancólico e saudosista, característica marcante dos nossos patrícios. Não é grosseiro como alguns portugueses, pelo contrário, é extremamente doce e cheio de sorrisos. Seu motor anda falhando, e conversando com ele fiquei imaginando por dentro da sua camisa de listras as válvulas e pistões funciando irregulares. Me lembrei da música, “meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito”… e a música segue a melancolia saudosa desse Alberto português, “teu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito, o coração dos aflitos, pipoca dentro do peito”, pipoca o motor de fusca dentro do peito do Alberto.

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