Intervozes – Levante sua voz
Vídeo sobre direito à comunicação produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung retrata a concentração dos meios de comunicação existente no Brasil.
Add comment Novembro 17, 2009
Casa de Repouso
Um velho caboclo de barro
esquecido na mesa do canto.
Um velho pescador de barro
que perdeu o anzol faz tempo.
Também perdeu
o peixe, o rio, o mar…
Um velho de chapéu de palha,
de olhar cansado
de ver teias de aranha.
Um velho sentado na pedra
tão imóvel quanto ele,
que resiste ao tempo.
Um velho perdido
na decoração da casa.
Um velho que guarda segredos
nas cicatrizes do rosto.
Um velho corcunda
de barba grisalha.
Um velho à espera de um sopro
que o ressuscite do barro.
Waro >A multiplicação dos cães<
Add comment Outubro 22, 2009
Cheiro de terra molhada
Embarco. Destino Rio de Janeiro. Pela janela a bonitinha e gelada Curitiba me diz tchau em grande estilo: frio, vento e chuva. Respondo até breve! Porque voltarei, por que sempre volto? Embarco, acho que pela primeira vez, desde que me tornei adulto semi-responsável, viajo com pouca carga, uma mochila só, três cuecas, três meias e os etceteres de sempre. Agora, quando fui acomodar a mochila percebi que não trazia a costumeira máquina fotográfica, talvez ela tenha se tornado grande nos últimos tempos. Tenho feito muitas mudanças, não no sentido de metáfora, mudanças mesmo, bagulhos, quinquilharias, caminhão, caixas cheios de livros. Livros! Caramba, não trouxe nenhum! Como posso viajar sem eles, ou talvez uma revista que é um tipo de livro descartável? Mas aqui estou sem livro e sem máquina fotográfica. Qual será o significado deste acaso? Fotografias lembram lazer, e eu não fotografo tão bem assim para tratar desse assunto profissionalmente. Livro sempre é prazer, mesmo os chatos, mesmo os de trabalho – os meus têm muitas figurinhas divertidas. Não consigo levar as letras a sério, elas sempre me suscitam pensamentos recheados de emoção. Escutei o Thiago de Mello esses dias, ele dizia que a cabeça também era fonte de fortes emoções e o coração podia pensar muito bem. Talvez não fosse exatamente isso o que ele dizia, mas como grande poeta que é, me perdoaria.
Minha mão não cansa, vou manuscrevendo e embarcando nesse vôo de papel pautado. As palavrinhas vão deslizando por elas. Não meço o comprimento das linhas, nem conto sua altura, mas as pautas – palavra com som antigo meio em desuso – vão ordenando tudo, a minha revelia, já que não sou muito de pôr ordem nas coisas. A vida é toda desordem, nós a ordenamos e depois desordenamos de novo, quando vamos envelhecendo. Ou será o contrário?
Pausa
Grande pássaro de metal caminha retumbante pela pista de cimento. Piloto anuncia a decolagem, esse bicho é mesmo de voar, rodar não é seu forte, vamos ao vôo então… alguns segundos de “será que vai subir?”, asas postas ao lado, se fosse humano esse pássaro estaria primeiro de asas retraídas que se estenderiam no momento exato do salto… mas não é… o bicho pega velocidade, sinto o chão fugir, vai vai vai vai… ufa, pronto. Em meio a chuva partimos, já passamos por ela, agora só nuvens, não há gotas, abandonamos os respingos para trás, branco, branco, branco, potência cortando o céu… tempo infinito de subida resumido a alguns segundos. Branco, branco, branco, o céu é branco, a chuva era ilusão. Sinto que o avião sobe, sei pela leve inclinação de vôo, e o ensurdecer do ouvido. Branco, sacode, branco, o avião resvala nas coisas de algodão, sobe, inclina, sacode, branco. Um leve calor de sol me atinge, não o vejo, tudo branco, agora um branco mais iluminado, intenso, quente. O branco pode ser quente? Um apito chato apita lá no fundo, perto dos banheiros, pelo jeito é normal, nenhuma bela aeromoça passa. O branco esquenta, sacode, resvala, escorrega no ar, o branco ofusca. Metal contra nuvens, não era uma música do Renato Russo? Risos. Sim, sou desse tempo do Renato poeta do rock, que fazia a adolescência alienada – inclusive eu – cantar poesia, falar de homossexualismo, chorar pela aids. Metal sacode. Piloto nos acalma. Eita céu esburacado. Será que esses são os tais buracos da camada de ozônio? Dizem que ozônio tem cheiro, parece com cheiro de terra molhada depois da chuva. Por que será que amamos tanto esse cheiro? O que nos lembra? Ao que nos remete? Acho que nos remete ao divino, ao inexplicável. A pura e simples fé. Será que o cheiro de terra molhada depois da chuva será um dia engarrafado? Não acredito, a gente sabe do seu valor e por isso não o aprisionaremos, as coisas mais preciosas não devem ser guardadas. Os guaranis acreditam que Deus é aquela bruma da manhã permeando a floresta. Pensando bem, acho que Deus deve ter cheiro de terra molhada.
Add comment Outubro 16, 2009
Acordei surdo e mudo
Acordei surdo. Quase surdo, claro que ouvia, mas ouvia mal. Zumbido, ecos, nada funcionava direito na minha orelha, principalmente a direita. Fui levando, como bom macho que odeia ir a médicos e admitir doenças. Um, dois, três dias e nada. Tirei proveito de algumas situações, as vezes é bem conveniente se passar por surdo, e também me ferrei em outras.
Na caminhada matinal com meu companheiro de tentativa de exercício foi um martírio. Como diria a esposa dele “a gente conversa mais que caminha”, é verdade tenho que admitir, mas só caminho porque converso, e taí uma boa justificativa para o exercício. Nossa caminhada surda foi fogo, ele me contou um monte de coisas, me explicou várias outras e eu nada, não entendia bulhufas, fui levando, mas uma hora me envergonhei e abortei a última volta no parque. Sei lá, ele poderia estar contando algo importante.
Também tirei proveito. Estranhamente (talvez um médico possa explicar) eu ouvia melhor as coisas de longe e não ouvia nada bem de perto. Deitado na cama ouvia os sons dos vizinhos, no restaurante a conversa de outras mesas e assim por diante. Tive então uma luz: a audição é responsável pela profundidade do mundo! Caramba, fiquei muito feliz com isso, me achei um gênio. Com a surdez invertida o perto ficou longe e o longe ficou perto, foi demais, uma viagem nas perspectivas, Leonardo da Vinci e Einstein ficariam felizes comigo.
Depois fui ficando mudo. Quando a gente não ouve direito parece que não dá pra falar, não é só porque não escutamos a nossa voz, também por isso, mas porque fogem os argumentos, as idéias. Descobri que eu dependo de ouvir muito para poder falar, fiquei mudo, sem assunto, apático, sem graça, sem sal. Quando estive uma vez na europa foi assim no começo, não entendia portanto não falava. Aos poucos juntei espanhol, francês, inglês e gestolês e fiz minha salada de comunicação. Não entender o que se fala também é ser meio surdo, aí ficava mudo.
Essas e outras coisas que agora não me recordo me fizeram tomar uma atitude, tratei a surdez, método caseiro é claro, e não queiram a receita. Agora estou falante de novo, até escrever fica melhor se a gente pode ouvir a profundidade das coisas nas distâncias certas. Na somatória de vantagens e desvantagens decidi: não quero mais acordar surdo e mudo.
Add comment Setembro 25, 2009
Preto, branco e vermelho ferrari

Lá estava ele, pomposamente abrigado em sua garagem em preto e branco. Seu vermelho ferrari brilhava, fusquinha antigo, todo inteiraço, placa preta de colecionador. Engraçado é que adquiri meu fusca, nos idos de 2001, numa garagem igualzinha, só alguns blocos acima, neste mesmo conjunto habitacional. Nunca consegui deixá-lo desse jeito, impecável, sempre tinha alguns defeitinhos rondando, mas como todo fusca que se preze dava o ar da sua graça e fazia as românticas respirarem mais fundo.
O que me impressionou hoje, além da belezura desse brinquedo de gente grande, foi a composição em preto e branco do restante da imagem. Algum detalhe de cor, que poderia ser dispensável…. talvez o vermelho ferrari ofusque as outras cores, no meu volkswagen era vermelho cereja, nomeclatura que os amantes de fusca me ensinaram. A cor, sim, a cor e a ausência dela, a composição com roupas penduradas, a garagem 13 – da sorte? – as formas frutíferas do carro – deve ser daí a durabilidade desse desenho, dá vontade de comer – contrastando com as linhas retas de conjunto habitacional.
Foi só um click, como um olhar de soslaio para alguém que se esconde nas sombras, e dá logo vontade do convite: vem fusquinha, vem flertar comigo, vem pras ruas cinzentas de Curitiba, animar as passantes e roubar-lhes aquele suspiro nostálgico e prolongado das mais românticas.
Antes de findar: o nome do conjunto é Conjunto Vênus, lugar para romances, mesmo feito de chapas de metal.
Add comment Setembro 25, 2009
Predadores da alma
Alcione Araújo
Por onde passo, procuro os olhos de uma pessoa, de outra e mais outra. Aqui e ali, em um ou outro olhar, encontro algum brilho de vida, de expectativa e de esperança. Um olhar que brilha é mais do que um consolo: é uma confirmação. Os que amam tornam-se generosos. O amor expulsa a mesquinharia, o egoísmo. Neles, sobra o que, em geral, nos falta. E não é apenas o seu olhar que brilha. O ser que ama irradia luz, e queremos que esta luz nos ilumine.
Mas as almas estão feridas. A grande maioria dos olhos está baça, opaca, sem luz. Como se um ar parado acumulasse nuvens na frente do sol, e as pessoas, perdidas dentro da neblina, não conseguissem enxergar nada à frente. Caminham inseguras e cautelosas, sem saber direito onde estão, nem que riscos as ameaçam. E lá vão elas, cada qual cuidando de si, protegendo seu pedacinho visível de percurso, isso enquanto ainda não se perdeu das mãos amigas, e depende de segurar a de um estranho.
Estamos começando a perceber o que é a extensão e profundidade de viver numa sociedade de massa. A quantidade altera profundamente a qualidade. O futuro já foi incerto, hoje é imponderável. Já não somos, nem vislumbramos o que seremos. O sentimento é de que não há mais um mesmo barco, embora possa haver um mesmo mar. Acentua-se o sentimento de estar perdido, de não se estar entendendo tudo o que acontece. Resta a sensação de extrema solidão num mundo super-habitado. Se antes se perguntava de onde viemos e para onde iríamos, hoje se pergunta o que fazemos aqui e o que fizemos disso aqui. Num darwinismo terminal, formos largando, pelos imponderáveis caminhos da vida, as nossas referências pessoais, familiares, políticas, filosóficas, religiosas. E não tínhamos pelo que substituí-las. Valores em crise, fé em declínio, e eis-nos nos braços da mistificação a varejo. Seguimos nus, caminhando contra o vento gelado, coração apertado pelo medo.
Mas não era disso que queria falar. Esse tema me tomou. Queria falar do amor, é claro. Tenho uma amiga que, depois de três filhos e dois maridos, está apaixonada. Outro dia, fomos jantar. Embora discreta, era como se tivesse um farol acesso na mesa. Todos os barcos que passavam ameaçavam atracar. Mas era inevitável. O olhar dela espargia luz para todos os lados. A sensualidade exalava do corpo. E não era só isso. Tinha o sorriso: irresistível.
Mas eu queria saber muita coisa. Por exemplo: como a paixão pode atacar alguém que já está roçando as cordas? O acúmulo de erros das experiências anteriores não desanima? Tantos aos de espera pelo amor não congela o desejo? Ela foi respondendo â medida que a minha curiosidade permitia. Mas começou do começo.
A primeira medida foi limpar o coração. Havia lixo acumulado desde a adolescência. Lixo de amor não sai pela lixeira, faz parte de mim, sou eu. Tem que ser limpo, cada caquinho. É como satélite, que vira lixo espacial. E temos de mocinha, de moça, de mulher, de esposa, etc. Meu Deus, como ajuntei lixo, como sou fita de lixo. Tirei tudo, caco a caco, limpei tudo, e repus no lugar. Ah, que alívio! Lixo limpo é inofensivo.
Depois joguei fora o passado. O passado depositado nos objetos, o passado que se acumulara na minha memória — já disse várias vezes, não seu que vivo no passado, é o passado que está em mim. Fora com ele. Depois, botei fora o que não precisava mais. O que fazia na minha casa o barbeador do Nestor, se casa outra vez? Lixo.
Não conseguíamos pedir o prato porque a conversa me interessava mais. Aos poucos, foi ficando à vontade. Perguntou se senti o cheiro de naftalina do vestido, que o sapato da irmã era um número menor e teve que ressuscitar o band-aid do Aldir. Não saía de casa, para que gastaria dinheiro com essas coisa?
E foi então que ele caiu de pára-quedas. Uma amiga resolveu chama-la para tomar um vinho de aniversário num restaurante. A certa altura, a amiga foi ao banheiro. Um gato e cabelos grisalhos que estava no balcão aproximou-se e, apresentando-se com Ângelo, perguntou se não queria a companhia de um homem. Foi então que lhe ocorreu uma resposta que ela até hoje não sabe se ouviu de alguém, se leu em algum lugar, ou se foi criação dela: “Olha, Ângelo, na verdade, eu não estou procurando um homem. Acho que não passam de predadores de alma e caçadores de corpos. Mas vocês nascem assim. Estou aqui para ver se ele me acha. O que tenho a fazer é apenas receber aquele que me escolher. Senta, Ângelo, e fica à vontade.”
Alcione Araújo, do livro Urgente é a vida – 2004
Add comment Setembro 4, 2009
Homem tropeço
Eu que sou manco
sem ter pernas tortas
Que tenho fome
apesar de saciado
Que sou presente
sempre efêmero.
Eu que sou cego
de óculos vidente
Que sou culpado
sem ser incrimado.
Que me sinto fraco
mas não estou doente.
E que estou doente
sem me inflamar
Que me inflamo
sem levantar a voz.
Eu que sou matuto
cidadão urbano
Que sou santo
pecador incurável
Que tenho a cura
para o mal que não há.
Eu que me arrasto
Calango de asas
Que prego certezas
cheio de dúvidas.
Que atropelo
que atrapalho
que me escapo
que me fujo,
que reprovo.
Eu que sou amado,
sem entender o amor
Que marcho soldado
enfileirado na ilusão.
E ando equivocado
na trilha da paixão.
Raro de Oliveira – Setembro de 2009
Add comment Setembro 3, 2009
A bola cor de laranja
O Rio de Janeiro fica vazio no carnaval. Essa afirmação parece meio estrambólica mas é verdade. Fica vazio nas ruas que levam ao trabalho, nas repartições, nas grandes avenidas. Dirigir no subúrbio turbulento do Rio nesses dias é uma beleza, pois podemos apreciar as vias e casas e não só sobreviver ao trânsito enfurecido.
Nessas andanças passeio pela Marechal Rondon, via expressa que liga o Méier à Vila Izabel. Mesmo com a cidade mais calma a “Rondon” tem bastante movimento e estava atento ao trânsito. Quando subitamente uma bola, poucos metros a frente, cruza a rua quicando. Atravessa cerelepe sem tocar nos carros, ou ao contrário, e chega ilesa ao outro lado.
Mesmo na supresa do acontecido pude notar que a bola era alaranjada e bem surrada. Saiu voando de uma casa antiga e simples, com muros altos que tentavam se proteger do barulho e da poeira do trânsito. Não vi mais nada, mas continuei elucubrando, como é tarefa do poeta. Fiquei imaginando os meninos por trás do vôo da bola. O chute que vazou o gol ou talvez o chute torto. A disputa de futebol num corredor estreito, como eu mesmo fiz muitas vezes na minha infância, o susto dos moleques pela bola que escapou para a rua. Fiquei imaginando os risos e as gargalhadas depois da surpresa. E também a aventura de buscar a bola, antes que a alguém a catasse.
Mas o sentimento maior foi de intromissão, uma invasão muito bem-vinda no mundo dos adultos, o mundo sério das ruas e avenidas feito só para carros. Porque as ruas também são para os meninos, como diria Ziraldo, são para andar a pé, fechar a rua com golzinho, jogar béts, soltar pipa, namorar. E aquela bola intrusa desbravou a via me lembrando que havia outro mundo ali tão pertinho, outro teatro da vida acontecendo e não tão visível. O teatro da infância e do ócio.
Aquela bola vazou para o meu mundo sério, era um satélite extraviado navegando pelo tempo de mim mesmo.
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Certa vez eu e meu irmão fabricamos algumas gaivotas, aviões de papel, e ficamos jogando da varanda do terceiro andar de um apartamento que dava para uma rua movimentada. Era uma das nossas diversões preferidas. Estávamos lá, numa varanda cheia de poeira de asfalto, “pesquisando” a ciência do vôo, a forma, o desenho das nossas gaivotas de papel. E uma delas, marotamente teceu um vôo mais agressivo. Fez uma curva mais ágil e se lançou suicida na janela de um carro que passava. Era a janela do motorista que foi atingido pela gaivota kamikase. O homem teve um grande susto e quase ser perde na direção. Em uma fração de segundo não haviam mais indícios de nosso crime de papel. Estávamos sentados inocentemente no sofá, com a maior das caras lavadas, mas o coração disparado.
Add comment Maio 26, 2009
Combinação perfeita
Todos os brasileiros conhecem bem a foto acima, arroz e feijão no mesmo prato. Talvez no sul ou no norte o feijão seja mulatinho, ou carioquinha, como queiram. Mas o feijão com o arroz daqui do Rio de Janeiro, especialmente o da dona. Suzana é assim, branco e preto. Quando ela me serviu esses dias com o prato dividido nas duas cores me veio a idéia da foto. Ajustei os detalhes, joguei uma carne seca em cima do arroz e um pouco de arroz em cima do feijão e tava pronto. O prato perfeito, equilibrado, harmônico e fresquinho. Neste dias aqui no Rio comi ying e yang no almoço e no jantar, e sabe o quê? Estou me sentindo ótimo.
1 comment Novembro 15, 2008






